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O NASCIMENTO DE JOÃO FELIPE (20/01/05)
Tudo começou após o meu primeiro parto, o nascimento
do Pedro Gabriel foi, para mim, uma experiência transformadora,
funcionou como catálise para que viesse à tona uma
mulher que estava adormecida em mim. Após o parto senti que
nascia também uma nova Debora, mais forte, mais madura, mais
feliz. O Marcos, meu marido, também foi afetado pela visão
do parto, ele, que já era um companheiro maravilhoso, ficou
muito mais próximo a mim, parece que ele teve uma compreensão
do que é a alma feminina.
Estávamos mais unidos do que nunca, afinal, havíamos
vencido uma batalha de titãs e eu havia conquistado o direito
de parir, contrariando toda uma sociedade que, por estar desconectada
da natureza, acredita apenas na tecnologia e em padrões estabelecidos
e esquece-se do ser humano. Pedro Gabriel nasceu de parto natural,
pélvico, de bunda para a lua.
Adorei parir, adorei ser mãe, tanto que, um ano depois,
estava grávida novamente.
Da minha primeira experiência só tinha ficado um ponto
negativo: a chatice que é um hospital. Dessa vez eu estava
determinada a ter meu filho em casa.
Nessa época o JK ainda não fazia partos domiciliares,
eu e minha doula pensamos num plano: convidaríamos ele para
um chá e quando ele chegasse eu estaria em pleno trabalho
de parto. Mas não foi necessário, ele animou-se com
a idéia e "achou" que faria sua estréia
em partos domiciliares comigo (eu disse "achou", porque
a mulherada quando soube da notícia ficou animada e muitas
passaram na minha frente e "estrearam" o Dr. J.).
Assim como da primeira vez eu tive uma gestação super
tranqüila, nada de enjôos, nada de inchaços, engordei
pouco, uma beleza. Não fiz ultras nem tomei vitaminas. Eu
e o Má decidimos que não queríamos saber o
sexo do bebê, seria uma surpresa.
Mas, se não tivesse emoção nessa gravidez
eu não me chamaria Debora, a mulher que contraria as indicações
de cesárea. Com 35 semanas senti que havia alguma coisa vazando,
minha calcinha ficava molhada. Não era xixi, não era
corrimento; era líquido amniótico, eu devia estar
com uma ruptura de bolsa. Na hora pensei: "P*Q*P*, nada pode
ser fácil para mim!" Liguei para o Dr. J. e para
a minha doula que disse que poderia ser um "furinho" (lindo
eufemismo) na bolsa e que ela sabia de casos que fechava (eu confiei
nas palavras dela, mentalizei e desejei profundamente que o meu
"furo" iria fechar). Não queria ir para um hospital
de jeito nenhum. A essa altura eu já tava querendo brigar
com Deus: "Why me?" Ele deve ter respondido: "Por
que senão não teria graça! Eu brinco com vc
para testar seu empoderamento e seu bom humor."
E não é que, depois de 3 dias, o vazamento parou?
Não, ainda não foi dessa vez.
Então, num domingo depois do almoço eu comecei a
sentir contrações mais fortinhas, eu estava preste
a completar 38 semanas. Eu e o Marcos monitoramos para ver se havia
uma regularidade: estavam vindo de 15 em 15 minutos. "Acho
que estou entrando em TP" - falei. Então resolvemos
avisar a doula que estava num parto com a equipe do Dr. J..
Combinamos que ela viria em casa à noite. Liguei para minha
mãe, eu queria que ela estivesse presente no meu parto. Ela
é uma pessoa maravilhosa, conectada com a natureza, nossa
relação vai além da mãe-filha. Minha
mãe teve três partos normais e sempre apoiou minha
decisão em ter partos naturais. Entretanto, quando eu nasci
ela sofreu todas as intervenções e maus-tratos tão
comuns dados à uma mulher inexperiente que chega ao hospital
em início de TP. Ela tinha 19 anos, estava sozinha, éramos
apenas nós duas contra o sistema. Então, esse meu
parto seria um resgate, para nós duas, do meu nascimento,
seria a nossa revanche.
O intervalo entre as contrações foi diminuindo. A
doula chegou em casa. Então as contrações
chegaram a 5 em 5 e estacionaram... O TP não foi pra frente
nem pra trás. Todos foram embora. E foi assim que se iniciou
o meu TP à prestação (ou como disse alguém
da lista: o TP Casas Bahia, com as prestações mais
longas da praça). Foram mais de 10 dias de pródromos
em que tudo acontecia: contrações que aumentavam e
diminuíam, perda de tampão, sangramento devido à
dilatação do colo do útero, mas nada do trabalho
de parto engatar.
Era a natureza brincando comigo novamente, mostrando que não
há regras, não existe um modelo. Cada parto é
um parto. È por isso que tantas mulheres são violentadas
com cesáreas, porque se espera um padrão, não
acreditam no parto, acreditam em números.
Mas como querer que o Divino encaixe-se num padrão? È
um capricho humano idiota querer controlar a natureza.
Eu ia tentando conter a ansiedade, aproveitei para arrumar as coisinhas
do bebê, fiz bastantes rituais, namorei, namorei...
Na quarta-feira (19/01) eu e o Marcos resolvemos tirar o dia só
para nós, fomos passear. Andamos bastante, conversamos, comemos
(Nossa... como eu comi nesse dia, parecia que eu estava adivinhando
que precisaria de energia extra). À noite decidimos colocar
nossas melhores roupas e sair com a família (eu, Má,
Pedrinho e bebê na barriga), fomos jantar. Foi uma noite muito
especial. Quando chegamos em casa eu sentia-me exausta, o Má
ficou com o Pedrinho e eu fui dormir (bem mais cedo que o habitual).
À 1:47 da madrugada acordei com uma forte contração,
intuitivamente apertei a mão do Marcos que acordou. Eu estava
tão bêbada de sono que não sabia dizer se era
TP ou indigestão hehehehe.
Levantamos. Logo, outra baita contração. Falei para
o Má: "Agora é!". Mas ele ainda estava desconfiado
por causa dos falsos TPs (é o que eu digo, parece a história
do "é o lobo, é o lobo", quando o lobo aparece
ninguém acredita) ele disse: "Vamos ver, se vc tiver
mais umas três dessas eu ligo para todo mundo". Eu estava
sem credibilidade, mas, para salvar minha moral, vieram mais três
contrações que me fizeram querer bater nele. Então
ele acreditou e fez as ligações.
Logo todos estavam aqui em casa: a doula, JK, M., Andrea,
minha mãe (Tânia) e meu padrasto (Cláudio).
Eu planejava ter o bb no quarto, mas o Pedro estava dormindo, então
a sala foi o local escolhido.
As contrações vinham fortes, não conseguia
ficar parada. Então resolvi dançar, dancei com o Marcos,
com minha mãe, com a doula, com a M.... Tudo estava
indo rápido, logo comecei a sentir os puxos. Eu estava ficando
cansada, puseram a cadeira de cócoras para eu sentar. A doula
ficou na minha frente e o Marcos ajoelhou-se para segurar minha
mão. A cada contração eu buscava o seu olhar,
era como um guia para eu não mergulhar no descontrole.
Nas primeiras contrações eu estava com uma garotinha
recatada, era só "Ai, meu Deus", "Ai, Jesus",
"Ai, Nossa Senhora". Depois minha boca estava tão
suja quanto a de uma meretriz, eu gritava "P*q*p*", "Cara***",
"Cace**", a certa altura eu berrei "P*q*p*, A.,
eu tinha esquecido como essa porra dói!"
Eu sentia vontade de fazer força, mas a dilatação
ainda não estava completa. A bolsa ficava aparecendo (que
coisa linda! Translúcida...) Pedi para filmarem. Aliás,
não sei onde consegui arrumar neurônios para, em pleno
TP, tentar organizar o pessoal. Lembrei que alguém precisava
filmar e fotografar, pedi para apagarem a luz e trazerem um abajur,
mostrei para a Andrea onde desligar o ventilador. Só
a dona da casa para organizar seu próprio parto hehehe.
Voltando ao parto: eu tinha vontade de fazer força, mas
a dilatação ainda não estava completa, eu também
estava ficando cansada, então o Dr. J. sugeriu que eu
fosse para o chuveiro. Puseram o banquinho e eu fiquei embaixo d'água.
A água quente é uma benção para uma
mulher parindo, que delícia, que alívio...Eu não
queria mais sair de lá. (Nunca planejei meu parto no banheiro,
mas é tão óbvio. Afinal o banheiro é
o local mais adequado às coisas fisiológicas) A minha doula
e o Marcos se revezavam. Até que chegou o momento em
que eu não quis mais gritar nem reclamar. Voltei-me para
dentro de mim, concentrei-me no meu bebê, fui para a "partolândia".
Apenas respiro e faço força. Sinto todo o meu corpo
se abrindo, respiro, éramos apenas eu e o bebê, faço
força, eu sabia que faltava pouco.
Num breve instante abro os olhos, vejo minha mãe e a doula
em frente a mim. Três mulheres, uma tríade feminina.
Escuto minha mãe falar sobre o valor de se resgatar um parto.
Mais uma força. Sinto o anel de fogo. Fecho os olhos, procuro
respirar profundamente.
Quando abri os olhos o banheiro já estava cheio, o Dr. J.
estava sentado abaixo de mim. Entre as pessoas procuro o Marcos.
Ele estava lá, apreensivo, emocionado. Mais uma força
e sinto meu bebê saindo (no vídeo eu vi que ele estava
com uma circular de cordão que foi facilmente retirada).
Imediatamente ele foi colocado nos meus braços. Só
consigo dizer "Aahh... bebê, meu bebê..."
Tento decorar cada pedacinho dele, lembro de olhar o sexo: "É
menino!" O Marcos entrou no box, nos abraçamos, nos
beijamos.
Continuo conferindo cada pedacinho, até que percebo que
ele tem seis dedinhos num pé (o Marcos tem seis dedos em
cada pé). Eu disse: "Má, tem seis dedinhos!"
Resolvi contar os dedos das mãos, seis em cada. "Na
mão também!" Essa foi a nossa surpresa, não
achamos ruim, pelo contrário, ele trazia a marca do pai dele.
Esse é o milagre da vida, é quando percebemos nitidamente
que os nossos filhos são a extensão de nós
mesmos. Nesse momento o Marcos não conseguiu controlar a
emoção e se desmanchou em lágrimas. Minha mãe
também chorava, estava vingada. Pedi para ela trazer o Pedro
que já havia acordado e estava brincando com o "bobô"
(o avô dele). Assim que viu o bebê ele abriu um baita
sorrisão e gritou: "Ne-ném!" (Como quem
dá boas vindas a alguém muito esperado). Ficamos os
quatro espremidos no box minúsculo, era a nossa família
aumentando. O Marcos cortou o cordão. João Felipe,
meu bebezinho, finalmente estreou para o mundo, uma estréia
gloriosa!
Beijos,
Debora,
29 anos, casada com Marcos
mãe de Pedro Gabriel, 1 ano e 10 meses (parto normal/pélvico)
e João Felipe, 12 dias (parto natural, domiciliar)
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