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Relato do nascimento da Isadora, no dia 27/09/2005,
filha mui querida e desejada da Joseli e do Arinaldo.
Tudo começou no início de 2004, quando após
3 anos de casados, decidimos que já era hora de termos um
filho. Comecei a fazer buscas em sites para obter informações
sobre fases da gestação, cuidados com bebês,
etc. Como não poderia deixar de ser, acabei encontrando alguns
sites sobre parto natural, parto na água, e afins. Achei
tudo muito bonito, poético, mas pensava que certamente aquilo
não era para mim.
Imagine, com tanta tecnologia eu nunca iria parir na água,
sem possibilidade de ter uma anestesia. Achava que o melhor para
mim era mesmo a cesárea, pois o médico 'faria o serviço'
e me entregaria o bebê depois, sem eu ter visto nada. Em fevereiro
fui a uma consulta com meu ginecologista e lhe comuniquei da vontade
de engravidar e de ter o bebê através de cesárea.
Suspendemos o anticoncepcional, ele me disse que 'se não
conseguisse me convencer de que o parto normal era melhor, faria
a cesárea', embora na verdade eu era a paciente que ele pediu
a Deus, pois não teria nem que tentar me enganar para entrar
na faca, pois eu já estava 'pronta'. Comecei a tomar ácido
fólico e remarcamos a consulta para maio, se eu não
engravidasse antes.
Passaram-se dois meses e nada, e eu continuava com minha busca
na internet. Um dia, no começo de maio, me deparei com o
site das amigas do parto, e aí começou a minha mudança.
Primeiro eu achei muito estranho, uma organização
a favor do parto normal, e pra quê isso? Depois achei legal,
que essas mulheres eram corajosas. Depois de quinze dias já
tinha 'decorado' seu conteúdo e estava certa de que eu também
teria um parto normal. Mas, será que eu encontraria um médico
disposto a assistir um parto naqueles moldes pelo meu convênio?
Entrei em contato com a minha doula no final de maio, sem mesmo estar
grávida, e descobri que teria que me programar, dificilmente
conseguiria um tratamento 'mais humano' pelo convênio. Que
decepção!!! Até existia um médico partidário
do parto normal no convênio, com o qual me consultei, mas
não houve empatia. Bem, entrei na lista materna e fui cada
vez me inteirando mais do assunto, cada vez criando mais convicção
do tipo de assistência que eu queria pra mim.
No começo a idéia do parto sem anestesia me fazia
muito medo, mas depois tive certeza de que dava pra ser assim, com
bons profissionais e apoio afetivo ao meu lado na hora P.
Nunca mais voltei no meu antigo médico (que nunca me ligou
pra saber o que tinha acontecido). Os meses se passaram, em dezembro
entrei de férias e ainda não estava grávida.
No serviço o pessoal brincava dizendo pra 'aproveitar' as
férias pra engravidar. Foi exatamente o que aconteceu. Ao
retornar ao serviço, em meados de janeiro, passei mal, fiquei
com enjôo um dia inteiro. Ao conversar com o Arinaldo, ele
já disse 'na lata' que eu estava grávida. Fiz o teste
de farmácia e deu positivo. Marquei uma consulta com a Dra
Dra A., mas ao chegar lá, ela teve que sair
às pressas para fazer um parto, e voltei pro serviço
sem realizar a consulta. Estava tão ansiosa que repeti o
teste 5 dias depois e confirmei: Teríamos um filhinho. Quanta
alegria naquela descoberta! Remarquei a consulta e fiz o pré
natal com a com a Dra A. desde o início, apesar
de não ter certeza se faria o parto com ela, por causa da
questão financeira.
Tudo prosseguiu bem, não tive mais enjôos, desejos,
nada. Com quase 4 meses só tinha engordado 2,5 quilos, até
esquecia que estava grávida. No domingo de páscoa
levei um tombo, caí de bunda no chão, mas nem liguei,
levantei e segui minha vida. Na segunda trabalhei normalmente, mas
passei mal no serviço, pois sentia tonturas, enjôo
e muita dor de cabeça. À noite, ao voltar pra casa
sentia cólica. Fui tomar um banho pra me deitar e ver se
melhorava, mas o que aconteceu foi que uma forte hemorragia começou.
Quando vi aquela sangueira descendo, sentei no vaso sanitário
(que ficou todo vermelho vivo) e, aos prantos, informei meu marido
e pedi o celular pra falar com a Dra A.. Resultado: fomos
todos para o Santa Catarina, onde foi diagnosticado um pequeno descolamento
de placenta, mas graças a Deus o bebê estava bem. Fiquei
internada por dois dias, mais uns quinze de repouso, e tudo voltou
ao normal.
A gravidez seguiu sem problemas até o final. Depois de 38
semanas eu fui ficando bem ansiosa para ter a nenê. À
partir daí, sempre tinha as contrações de BH
várias vezes ao dia. A gente acaba vivendo um dia de cada
vez, a cada manhã nós nos perguntamos se será
o último dia da espera pelo nascimento. Assim foram transcorridas
mais duas semanas. Trabalhei até o final da 40ª semana.
A cada dia que passava, sentia uma pontinha de desapontamento por
ela ainda não ter nascido.
Na quinta-feira 22 de setembro, no Gama, a doula ativou um ponto
na minha perna para 'desencadear' o TP. Saí de lá
com contrações regulares e indolores de 5 em 5 minutos.
Isso durou a noite toda, desaparecendo de manhã. No sábado
24 de setembro, com 41 semanas e um dia resolvemos (a Dra A.,
Ari e eu) fazer um descolamento de membranas, para acelerar o processo.
Neste dia à tarde fiz uma longa caminhada, e o TP aparentemente
começou. As contrações vinham de 20 em 20 minutos,
depois de 15 em 15, com um pouco de cólica. Assim a noite
de sábado se passou.
No domingo à tarde fizemos nova caminhada (eu e o Arinaldo)
o que ritmou as contrações. Durante o passeio, começou
a chover, corri um pouco, me escondi da chuva, e fiquei na rua (entre
caminhar e correr) por mais ou menos 2 horas. Ao retornar pra casa,
fui tomar banho e o tampão havia saído. Fiquei muito
feliz, finalmente estava tudo progredindo. Depois disso as contrações
se intensificaram, sempre de 10 em 10 minutos, mas elas estavam
durando pouco tempo, só uns 20 segundos e já não
dava para conversar durante as mesmas. Eu só respirava. Fomos
tentar dormir, mas já não havia posição
para mim. Acordei com muita dor às 2 horas da manhã.
Monitorei por 1 hora, as contrações estavam de 3 em
3 minutos, achei que já era a hora. Liguei pra doula,
ela veio pra minha casa.
Quando ela chegou, as contrações já estavam
bem mais espaçadas, e sem regularidade (uma vinha com 5 minutos,
depois de mais 2 vinha outra, depois demorava 10). Mesmo assim fomos
para o São Luiz, just in case. Ao chegar lá, às
05h20, eu estava com 2 cm para 3 de dilatação. Eu
não queria voltar pra casa. Estava chovendo, tinha medo de
pegar trânsito em pleno TP. Resolvemos internar. Subi para
o quarto, tomei banhos quentes, e nada. Passou a segunda-feira,
a dilatação não progrediu. Nesta mesma noite
começamos a induzir com um comprimido para deixar o colo
do útero mais fino. As contrações continuavam
doloridas e irregulares. Na terça-feira, dia 27, após
muita conversa, risadas, piadas, e um pouco de papo sério
entre eu, o Ari, as Dras Andrea e M. e a doula, resolvemos
induzir com ocitocina. Desci para o delivery às 18h00. Às
18h30 começamos a indução, com monitoramento
do bebê e das contrações.
Depois de meia hora a dor estava beirando o insuportável,
eu só pensava: "Eu não vou agüentar, vou
pedir anestesia". Fiquei com vontade de vomitar, mas não
consegui. A diyka estava numa sala ao lado, pensando que as coisas
estavam calmas, eu já com vontade de pedir arrego. O Arinaldo
fazia massagens nas minhas costas, e eu grunhia de dor. Numa hora
simplesmente protestei: "Onde está a minha doula? Chama
ela aqui agora!" A Dra A. levantou correndo e voltou
com a doula e a Dra M., que não saíram mais da sala.
Felizmente o monitoramento já estava acabando. Eu ia finalmente
entrar na banheira, meu sonho. (Durante a gestação,
tinha idealizado um parto na água, ou pelo menos passar o
TP nela.) Ao entrar na água quente, senti imediatamente um
grande alívio nas dores. As contrações continuavam
bem ritmadas, a cada 3 ou 4 minutos, mas as dores se tornaram bem
mais suportáveis.
Eu fiquei na banheira mais ou menos duas horas e meia. Via tudo,
estava ciente de tudo, mas não tinha nenhuma vontade de me
comunicar com ninguém. A sala estava na penumbra, só
aquelas 'luzinhas' coloridas no teto, as pessoas calmas, uma paz
só! A Dra. A. ficou numa sala contígua,
a Dra. M. fazia suas bijuterias, sentada num confortável
sofá, A minha doula e o Arinaldo se revezavam em ficar comigo,
cuidando para eu não passar frio e para que nada me faltasse.
Me ofereceram algum tipo de comida (algum sanduíche), mas
eu não queria nada, só aceitava água. Estava
muito centrada em mim. Durante as contrações eu fazia
os exercícios de respiração intuitivamente,
só esperando que elas passassem. Parecia ser o certo, doía
menos. Nos intervalos dormia e sonhava. Pude sentir a bebê
virar e encaixar na bacia por duas vezes, bem intervaladas. Entre
essas viradas A. veio com um aparelho ouvir o coraçãozinho
dela, e eu tinha certeza de que havia mudado o lugar. Dito e feito,
ela havia feito um giro, descido para nascer. Sentia uma leve pressão.
Numa contração, experimentei fazer um pouquinho de
força, e senti a bebê descendo pelo canal de parto.
Mas não disse nada, não tinha vontade de falar com
ninguém, e tinha vergonha de não ser verdade, ser
só uma sensação da minha cabeça. Pedia
a Deus que ela nascesse logo, pois naquele momento imaginava não
agüentar mais. Daí a alguns minutos a Dra A.
veio para fazer um toque e verificar como estava a dilatação,
pois ela achava necessário fazer mais um monitoramento da
bebê. Eu tive medo, não queria sair da água,
doía muito fora dela. Quando a Dra tentou fazer o toque,
(na água) seu rosto se irradiou, e ela disse: "Ela está
aqui embaixo, ela já vai nascer!!!". Fiquei feliz, estava
perto de ter minha filha. Imediatamente depois disso começou
a aparecer uma 'coisa branca', que era a cabecinha dela envolta
na bolsa, cheia de vernix. Todo mundo veio ver, a doula tirou
fotos, a Dra M. e o Arinaldo só riam, a Dra A.
pulava e gritava. Eu achava todo mundo louco. Na hora não
achei nada poético, estava cansada. Mas estava feliz porque
estava acabando.
A Dra. A. foi perguntar pra neonatologista se podia
nascer na água, mas a mulher disse que não. Vai entender
seus motivos... Pra mim, tudo bem, estava em paz, já não
sentia nenhuma dor, só aguardava a saída da nenê.
Com a ajuda da doula e do Ari, saí da banheira e sentei na
cama para o parto de cócoras, e o Ari sentou atrás
de mim, para me dar sustentação. Eu estava tão
bem, sem dor, mas meio na lua. Na primeira contração,
não fiz nada, sentia uma pressão incrível no
períneo, uma ardência, parecia que ia rasgar tudo.
Tive medo. Fechei os olhos, não queria ver (quem sabe assim
machucaria menos? J. Quando a contração (indolor)
passou, a Dra A. me disse: "se você fizer
força, pode ajudar seu bebê a nascer". Era o que
faltava, pois eu não sentia nenhuma vontade de fazer força.
O Bebê coroando, metade da cabecinha pra fora, totalmente
envolta na bolsa e eu poderia ficar assim por horas, não
sentia vontade de fazer nada.
A Dra ainda tentou me convencer a pegar eu mesma o bebê,
mas neguei. Simplesmente não tinha vontade de fazer nada.
Quando chegou a próxima contração, fiz uma
forcinha de nada e senti um grande alívio no períneo.
A cabeça tinha nascido. (Ainda não acredito que não
olhei!). A Dra A. disse para não fazer mais força,
eu juro que não fiz, mas a contração era tão
efetiva que o corpinho dela escorregou pra fora uns 10 segundos
depois da sua cabecinha. Não houve laceração
alguma no períneo, mas sim uma na mucosa, pois o corpinho
nasceu muito rapidamente. Eu estava de olhos fechados, não
percebi o nascimento. Só ouvi a Dra. dizer: "Seu bebê
já nasceu!" E eu: "Já??". Ela desenrolou
o cordão (que estava na perninha direita da Isadora) e me
deu a minha nenê, tão incrivelmente quentinha, inteirinha
lambuzada de vernix. Ela chorou um pouco, depois se acalmou com
minha voz, e fez seu primeiro cocô na minha mão, a
safadinha.
Quando o cordão parou de pulsar o Ari o cortou, e pudemos
puxá-la mais para perto de nós. Ela mamou logo depois.
Pegou o mamilo com força e sugou com vontade, sem medo de
ser feliz. A Isadora estava tão limpinha, sem nenhuma gotinha
de sangue, e eu ouvia as pessoas falarem: "Que parto 'limpo'!"
Enquanto curtíamos a bebê, a placenta fez pluft, e
saiu de uma vez, pegando todos de surpresa e sujando a Dra A.
de sangue. Depois da babação, a nenê foi levada
para sofrer as intervenções que o Hospital acha necessário,
apesar do nosso plano de parto ter sido antecipadamente aceito,
o que magoou muito ao Arinaldo e o levou a discutir com a neonatologista.
Eu ainda não tinha voltado da partolândia e nem percebi.
Depois de levar alguns pontos, me deram um 'banho de gato' e voltei
para o quarto, e depois de duas horas a bebê veio para mamar.
No outro dia ela passou a manhã conosco, quando a levaram,
por volta das 12h00, confirmamos que queríamos o alojamento
conjunto, o que demoraram muito pra resolver, e ela só veio
(definitivamente para o quarto) por volta das 20h00.
Graças a Deus a Isadora é cheia de saúde,
mama muuuiiiiiiiiiitttooo e é linda como ela só...
Fatos e curiosidades:
* Vale a pena fazermos de tudo para termos um parto digno. Vale
a pena rever as prioridades e mudar o que for necessário
pra chegar lá. Não me envergonho de dizer que só
compramos o essencial: meia dúzia de roupinhas básicas
e um berço de segunda mão, para podermos arcar com
o parto.
* Com a escolha do obstetra, dá para se ter um tratamento
bem 'humanizado' (esse termo já nos soa estranho, né?)
pra mulher, mas para a criança, só mesmo se for em
casa, pois o hospital sempre vai arrumar um jeitinho de fazer alguma
'intervençãozinha básica.'
* Vale a pena levar o marido para os encontros e entupi-los de
boa literatura sobre o parto, pois nossos companheiros são
o melhor apoio que podemos ter. Sem meu marido nada teria sido como
foi, eu nunca me sentiria tão segura.
* Na hora do 'pega pra capar' se a gente não tiver alguém
pra dar apoio, acaba mesmo na cesárea. Eu pensava: que mulherada
louca, pra quê passar por tanta dor? O próximo nenê
vai nascer de cesárea eletiva com 37 semanas, pra não
correr o risco de entrar em TP. E quando a contração
passava achava que dava pra agüentar, rs, rs... Depois pensava:
coitada da Relze, que vai ter em casa e não vai poder pedir
anestesia!!! Assim que passar esta eu peço. E não
pedia...Quando estava na banheira também pensava durante
as contrações em pedir anestesia na próxima,
mas não disse nada pra não sair da banheira.
* No meu caso, não houve um pico de dor, (que algumas mulheres
sentem mais perto do final, por exemplo). Todas as contrações
à partir do TP efetivo tiveram mais ou menos a mesma intensidade.
* Existem algumas pessoas (não me atrevo a dizer seus nomes)
que passam vernix fresquinho nas rugas do rosto logo após
o parto, e dizem que é para economizar com botox, rs, rs,
rs, rs...
Agradecimentos:
Agradeço primeiramente a Deus, que me fez assim tão
curiosa e me permitiu conhecer este lado tão lindo da vida,
e a melhor maneira de vivenciá-lo.
Agradeço ao meu marido pelo apoio incondicional, por todo
amor e carinho sempre demonstrados.
À toda a equipe por fazer este trabalho da melhor maneira
possível, segundo as nossas expectativas.
A todos os colegas dos encontros e da lista por todo o carinho.
Fiquem com Deus,
Abraço no coração,
Joseli, mãe da Isadora
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