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Relato do parto da Júlia,
por Denise Gonzalez
Eu estava no sexto mês de gestação e através
de uma reportagem da Revista da Folha entrei em contato com a Ana
Cris para saber mais sobre parto normal. Não estava satisfeita
com minha médica, pois toda vez que falava que queria parto
normal, ela me dizia, que só saberíamos na hora do
parto, que os centro cirúrgicos dos hospitais X e Y eram
muito equipados, com UTI neonatal etc, etc...Sempre encarei a gravidez
como algo fisiológico, não uma doença!
Queria muito parto normal, mas não tinha a
menor idéia que existia a possibilidade de fazer um parto
sem episiotomia, anestesia, ou qualquer outra intervenção
desnecessária. Por indicação da Ana Cris fui
me consultar com a Dra. A.C.. De cara já
percebi que teria que aprender muita coisa sobre o assunto, e como
aprendi! Com a lista Materna, com a Dra. A., nas reuniões
do GAMA, no curso de parto e nos livros. No final da gravidez estava
certa do que queria, um parto natural, de cócoras, na minha
casa. E estava super calma que tudo iria ser como sonhava...
Domingo, 13 de Março de 2005, o grande dia tinha chegado,
mas ainda não sentia nenhuma contração. Tinha
certeza que minhas contrações viriam em uma madrugada,
acho que tinha esta fantasia desde a metade da minha gravidez. Sei
que quando acordei na manhã do dia 13 sem ter sentido nada,
tinha certeza que minha filha não nasceria naquele dia. Me
lembro de ir ao banheiro com uma cara, que até o Lauro (meu
marido) sabia o motivo, e disse para eu ficar tranqüila que
logo logo nossa filha estaria chegando... sei que deixei a tristeza
de lado, me arrumei, tentei ficar com uma cara boa, saímos
para almoçar com amigos, depois do almoço quis caminhar,
queria caminhar para ver se entrava em trabalho de parto. Como estava
muito calor fomos a um shopping e andei, andei...
Segunda, 14 de Março de 2005. Acordei no meio da noite sentindo
uma dorzinha, como se fosse uma cólica bem fraca. Percebi
que as contrações vinham regulares de 5 em 5 minutos.
Era 00:00 do dia 14. Depois de mais ou menos meia hora levantei
da cama. Não conseguia dormir, era tanta adrenalina que não
conseguia. Estava feliz, pois sabia que minha filha nasceria naquele
dia. Depois de umas 3 horas com contrações regulares
liguei para a Dra. A., que estava de plantão.
As contrações estavam ficando cada vez mais doloridas,
tinha que me agachar toda vez que elas vinham.
Mais ou menos às 5 da manhã a minha doula
chegou aqui em casa, a Dra. A. já tinha ligado
para ela vir também. Fizemos um exame de toque, 1,5 cm de
dilatação! Me lembro da Dra. A. me dizendo...vc
não vai desanimar, hein?!? Eu achava que estaria com uns
3 cm...mas isso não era motivo para desânimo! Mas sabia
que ainda tinha um longo caminho...Fiquei horas sentada na bola
suíça, cheguei até a cochilar sobre ela. A
doula foi para casa dela almoçar, mas voltou rapidinho.
E eu fiquei horas no chuveiro, na banheira, na bola e no vaso do
banheiro. Toda vez que vinham as contrações a minha doula
massageava minha lombar, que já doía muito.
Mais ou menos às 16hs a Dra. M. chegou e
depois de algum tempo a Dra. A.. Segundo exame de toque:
3 cm de dilatação. Fiquei mais algumas horas debaixo
do chuveiro, como me sentia bem com aquela água quente caindo...Perdi
a noção do tempo, as contrações estavam
muito doloridas, mas suportáveis graças às
massagens da doula. Tenho certeza que se não estivesse
com ela teria pedido anestesia no final do trabalho de parto. Acho
que esperava sentir dor só no final, como algumas sortudas,
mas com as massagens estava conseguindo levar...e as horas passando,
a dor estava aumentando e eu ficando cansada, pois não tinha
dormido praticamente nada, e não consegui comer durante o
dia, só tomei gatorade e água de coco.
As contrações eram tão fortes
que comecei a gritar para ver se ajudava, e não é
que ajudava mesmo!!! Me lembrei de uma conversa com a Renata Penna,
em que eu dizia que não me imaginava gritando no meu trabalho
de parto...ah não!!!!! rs...E a doula coitada, não
teve sossego, eu não queria ficar uma contração
sem as massagens dela. Teve uma hora que ela pediu para o Lauro
fazer um pouco de massagem em mim, pois as mãos dela estava
com câimbras....Esse foi um momento que me lembro e me emociona,
pois durante as contrações fixava meus olhos nos olhos
do Lauro. Me sentia confortada e amada por ele. Tinha a nítida
sensação que doía menos enquanto olhava para
ele...
Muitas horas depois um novo exame de toque foi feito: 8,5 cm de
dilatação. Estava exausta, só queria que acabasse.
Comecei a achar que não conseguiria, que não tinha
mais forças para esperar. Como foi importante ouvir que essa
sensação era normal. Que estava acabando, que era
o pior momento. Era a fase de transição para o expulsivo.
O Dr. J. chegou aqui em casa. Fiquei muito feliz que ele veio
assistir o meu parto, pois apesar de ele não ser meu médico,
tenho uma admiração e carinho enorme por ele.
Depois de um tempo a Dra. A. me propôs
que fizéssemos uma depressão do meu períneo
para que desencadeasse uma vontade maior de fazer força.
Foi feito e deu certo. A dor mudou, era menor e mais para baixo.
Minha filha começou a descer. Sentir um bebê descer
é algo muito forte. A vontade de fazer força era incontrolável.
Sentia alegria pela proximidade do nascimento, mas cansaço,
muito cansaço, e medo.
Tive muito medo de me arrebentar toda. Mesmo sabendo
que nada disso poderia acontecer, naquele momento tinha quase certeza
que iria arrebentar, tudo mesmo. Então foi muito bom escutar
a cada contração que era só impressão,
que eu iria conseguir. E realmente eu consegui, não tive
nenhuma laceração, absolutamente nada! A Júlia
nasceu às 22:40 super bem, pesando 3,100Kg e com 50,5 cm.
Chorou assim que nasceu. E em seguida já foi para meu colo
e parou de chorar. Tinha os olhinhos fixos em mim. A felicidade
deste momento é indescritível! Sentir o copinho dela
ainda quentinho foi maravilhoso. Tentei dar o peito, mas ela só
lambia. Depois de um tempinho pegou o peito. Estava realizada, tudo
tinha acontecido como esperava e sonhava. Hoje me sinto mais forte,
mais mulher, e certamente mais feliz!
Agradeço de coração a todos
que me fizeram acreditar e ter conseguido ter meu parto natural
domiciliar: Lauro, a minha doula, Dra. A.C., Dra. M.
K., Dr. JK e a todas as mulheres desta lista Materna,
que com seus relatos e discussões me ajudaram a tomar a melhor
decisão da minha vida: ter minha filha em casa!
RELATO DO PAI DA JÚLIA
Apesar do Lauro já ter sido apresentado nos parágrafos
anteriores, de agora em diante sou mais conhecido como pai
da Julia. Sinto uma certa impotência para registrar
aqui os sentimentos daquele 14 de março inesquecível.
A sensação me parece até hoje tão arrebatadora
e os sentimentos chegam em tamanho turbilhão que qualquer
exposição parece acabar sempre caótica...
Talvez, sobressaia disto tudo um sentimento de importância.
Explico melhor: era a Denise que estava ali, sofrendo para trazer
nossa filha a esse mundo exterior. Só que, quando cada contração
vinha, eu dizia a ela para olhar para mim, fitar meus olhos e apertar
minha mão. E cada vez que isso acontecia eu sentia a minha
importância estampada no seu rosto. Poucas vezes me senti
tão amado e jamais imaginava que este sentimento apareceria
em um momento que antes nos causava um misto de medo e angústia.
Com o passar dos minutos, parecia já não haver diferença
entre nossos rostos, tamanha a ligação naquele momento.
Claro que as sensações de mãe e seu papel no
parto são inalcançáveis para o pai, mas, naquelas
horas, senti como nunca o que é ser indispensável.
Hoje, quando olho para nossa filhinha, sinto que meu amor por ela
guarda um certo agradecimento por ter me proporcionado um sensação
de importância tão única.... E tudo isso aqui,
na nossa casa, a uma parede de onde estou...
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