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Nossa! Finalmente hoje, dia 15 de janeiro de 2006,
estou começando a escrever o relato do parto do Cauré,
que ocorreu na madrugada do dia 13 de setembro de 2005, na nossa
casa, num bairro perto da Unicamp, em Campinas.
Desde seu nascimento, há 4 meses, passei por várias
fases com relação à escrita desse relato. Sabia
que ia fazê-lo, mas teve momentos que eu o encarava como pura
obrigação para com as listas de discussão na
internet, outros, que achava que seria interessante para meu filho
poder lê-lo mais para frente e, outros, que se tratava de
uma coisa importante para mim, já que considero a minha experiência
como um rito de passagem e o coroamento da minha vida sexual. Então,
hoje, inicio o relato achando tudo isso.
Na noite do dia 12, havia tido o seguinte sonho: Eu conversava
por telefone com a Raquel que participou do Grupo de Cócoras
da Unicamp e também da lista materna. Ela me perguntava quando
meu filho ia nascer e eu dizia: "Agora". (Era isso mesmo
que eu respondia, desde a 38ª. semana, para as pessoas que
me perguntavam na vida real). Mas ela me dizia: "A data provável
não é dia 16? Então não vai ser agora."
Bem, não foi no dia 12, mas no dia seguinte.
De manhã, sai de carro e, por distração, entrei
numa guia e estourei o pneu (mais um presságio que associei
com estourar a bolsa, que ainda estava intacta). Eu já estava
com 39 semanas e 3 dias e, claro, que não fui eu quem trocou
o pneu. Também passei numa horta e, esperando, olhei para
cima e me deparei com amoras maduras (setembro!).Eu havia passado
a gravidez inteira com desejo de amora, mas não tava na época.
Logicamente, comi algumas.
Logo depois do almoço, comi outra fruta, uma manga, e começaram
algumas contrações. Eu havia tido muitas contrações
durante a semana anterior; mais durante a noite, mas que logo passavam
quando eu deitava. Então, deitei para ver se era alarme falso.
Não, não. Elas não passaram e nem me deixaram
dormir, estavam de 20 em 20 minutos.
Gustavo estava trabalhando em casa. Subi até seu escritório
e avisei que parecia estar próximo. Nossa empregada foi embora
sem saber de nada. Liguei para minha amiga, fotógrafa e professora
de yoga _Fabiana_ e avisei que poderia ser naquela madrugada, para
ela cancelar suas aulas da noite e da manhã do dia seguinte.
Liguei para a Vilma (a parteira, enfermeira obstetra), que pediu
para eu observar e ir ligando para ela. Eu havia selecionado um
monte de músicas muito dançantes no dia anterior (sambas,
axés, lambadas, rumbas...até Sandra Rosa Madalena,
do Sidney Magal, tinha!) e fiquei dançando. A minha predileta
era Sandra, do Gil. Dancei um pouco com o Gu.
No final da tarde, ligamos para a Vilma que disse que ia dar um
tempo em São Paulo por causa do rush da saída e da
chuva. Em Campinas, tava começando a fazer tempo de chuva.
Gustavo saiu para fazer o estoque de comida e comprar as últimas
coisas que faltavam para o parto em casa. Fiquei em casa sozinha
das 18 às 19:30 horas. As contrações vinham,
eu me segurava numa barra de uma cadeira-rede e nos intervalos ia
escrevendo meu relato ao vivo para meu filho, que até então
não tinha nome. Nessa hora eu já havia mudado as músicas
para mais calmas e relaxantes.
Gustavo chegou e jantamos uma sopa de mandioca. As contrações
começaram a serem menos espaçadas e mais intensas
(em média de 5 em 5 min). Precisei parar com o relato ao
vivo. Às 20:30h liguei para Vilma e ela ainda estava em São
Paulo. Como assim? Ela havia entendido que eu ligaria ainda dizendo
para ela vir: VENHA.
As 21h. a Fabiana chegou. Eu não queria tomar banho antes
dos 5 cm de dilatação, com medo de parar o trabalho
de parto. Pedi para o Gustavo fazer o exame de toque porque também
havíamos combinado que ele faria, quando desse, ao invés
da Vilma. Dois dedos. Não me conformei, desde as 14h e dois
dedos! Meça em cm! O Gu mediu seus dedos com paquímetro
e deu 2,8 cm. Menos mal, mas havia muito trabalho ainda pela frente.
Ele e a Fá me convenceram a tomar banho. A chuva começou
e esfriou o tempo. A Vilma chegou às 22h. Com aquelas músicas
zens, todo mundo ficou relaxado, menos eu. Vilma chegou a me perguntar
se eu queria descansar. Claro que não, eu queria que ele
nascesse logo. Aquilo feriu o meu ego, resolvi acordar todo mundo
e colocar um certo vermelho naquele astral azul. Voltei com as músicas
de Carnaval (A Fá até falou que parecia o Carnaval
da Bahia). Gustavo fez uma acupuntura na minha orelha para a dor
e para organizar as contrações, mas Vilma achou melhor
não intervir e eu também. Eu não precisava
de sedativo para a dor, a qual estava super suportável.
A Vilma percebeu que eu estava tensa, segurando tudo no ombro e
resolveu fazer uma massagem (do in). Ela ia tocando nas minhas costas
e eu ia sentido a bacia abrir, sentia a lombar, a bunda...
Terminada a massagem, senti vontade de fazer xixi e, no banheiro,
onde havia um escalda-pé, notei um sangramento.Desesperei.
Havia lido que se houvesse sangramento era sinal de problema no
parto. A Vilma tentava me acalmar dizendo que era por causa da dilatação
do útero e eu querendo ouvir o coração do bebê.
OK. Ouvi rapidinho o coração e me convenci que estava
tudo bem. Nem queria fazer toque, pois achava que tava cedo, mas
a Vilma insistiu. 8 cm! Uau, que massagem! Passei de 3 para 8 cm
em vinte minutos! Tá vendo, vocês não tão
acreditando em mim, né... (pensei). Daí, dancei mais
um pouco, fiz um exercício que a Vilma indicou levando o
joelho na direção do peito e dei um "amasso"
no Gustavo (estava super feliz). Daí a pouco, percebi que
tinha chegado no expulsivo. Era mais ou menos meia-noite e já
havia perdido a aposta do sonho de que ele nasceria naquele dia.
Voltei para a barra. As contrações ficaram mais doloridas.
Vilma me perguntou se eu queria mudar de posição.
Eu quis (depois me arrependi de ter mudado). Fiquei de quatro, com
o Gustavo me puxando pelos braços. Eu jogava o bumbum para
o chão nos momentos de contração e Vilma ficava
dando uns toques com relação à postura. Depois,
Vilma achou melhor mudar de novo de posição e fiquei
semi deitada no chão, com o Gu apoiando meu tronco. Vilma
argumentou que parecia que um osso do cóccix estava dificultando
a passagem do bebê e me dizia que meus gritos não estavam
expulsando, mas travando tudo na garganta (Viadinha! Acertou na
mosca!).
Na posição semi-deitada, aí que o negócio
parou. Pela visão da Vilma o bebê tava alto (mas eu
não acreditava nessa hipótese). Para mim, eu tava
com medo. Medo, medo. Medo de ser mãe, de deixar de ser livre,
de deixar de ser a (teórica) gostosona, medo da responsabilidade.
Tive medo de liberar. Sabe quando a gente trava o gozo? Travei.
Veio a imagem do meu pai (tive culpa, Freud?). E também me
veio a imagem de um cocar vermelho. Tudo isso durante mais de duas
horas. As contrações rarearam e eu não tinha
coragem de tocar na minha barriga. Veja só, resolvi pensar
se eu queria ser mãe naquela hora. Fechava os olhos e a Vilma
me chama para a terra (eu tava na terra, mas em outra).
Até que percebi que tinha de liberar a energia vermelha
(acho que na hora que vi o cocar) e FODA-SE. Disse isso mesmo umas
duas vezes, foda-se Márcia (nos dois sentidos, o do prazer
e o de estar lascada). Mudamos novamente de posição.
De quatro novamente.
Nessa hora, eu já estava um pouco farta das correções
da Vilma com relação à minha postura. Eram
todas óbvias, mas eu não tava concentrada no corpo.
No entanto essas correções, para uma atriz, incomodavam
(Haja ego! Até no expulsivo !) Ela queria mudar novamente
de posição e eu quis tentar mais um pouco de quatro
(pensei: agora vou fazer certo!). Até que ela propôs
voltar para a barra, de cócoras. Oba! Lá eu sabia
me virar. Topei na hora. E assim foi.
Quando ele tava coroado, senti com a minha mão sua cabecinha
e depois praticamente sentei no chão. Nessa hora a Fá
lembrando da respiração e Gu na minha orelha dizendo:
VOCÊ SABE, me ajudaram profundamente. Na verdade, senti como
se tivesse me abrindo para um gozo. Não foi propriamente
um gozo, teve uma certa dor (principalmente um ardor no períneo),
mas depois que ele escorregou: QUE DELÌCIA! ELE É
LINDO. MEU DEUS, ELE É LINDO! E meu querido veio para meus
braços. Ficamos um tempo nos curtindo. Ele de olhos abertos,
tinha uma respiração bem ofegante e parecia com o
nariz ainda entupido. Eu um pouco boba e não acreditando
na revolução. Quando a Vilma pegou-o para pesar e
medir (48cm e 2, 8kg, opa 3kg), fiquei olhando-o com receio de pegar
novamente. Realmente não tinha mais volta e era lindo tudo
aquilo. Morte e vida juntos.
Pra terminar esse arquivo da (e para) minha memória, falta
dizer que o Gustavo cortou o cordão, a Fá se emocionou
tanto que mal conseguiu tirar fotos na hora H e a Vilma, na hora
do coroamento e da expulsão, foi coordenando para eu não
fazer força na hora da contração,mas sim para
fazer a força (de cocô) entre elas. Isso fez com que
eu não tivesse nenhuma laceração do períneo.
No final do parto até falei: eu quero outro, agora eu já
sei. (Depois de um mês já havia desistido dessa idéia,
dado o trabalho inimaginável que um filho dá). Agradeço
imensamente à Vilma, embora tenha ficado com um pouco de
raiva dela na hora, pois achei que ela foi muito interventora para
os meus parâmetros (conversamos sobre isso depois de dez dias).
Eu queria fazer tudo sozinha. (Acho que eu ia demorar muito, se
não fosse ela. Contraditório, né? Pois quando
ela me perguntava se eu queria descansar eu me sentia ofendida e
tentava apressar as coisas.)
Ao Gustavo meu eterno companheiro em TODAS as horas. À Fabiana,
pelas fotos, pelos belíssimos ensinamentos da yoga, pela
força, pela emoção. Ao Grupo de Cócoras
da Unicamp. Foi muito bom vivenciar a gravidez com outros casais.
As conversas, os relatos e a preparação física
para a hora do parto ajudaram na manutenção de minha
segurança em ser DONA do meu próprio parto. Considero
que as mulheres que têm seus filhos no Caism (com pouca ajuda
da equipe médica de plantão) são realmente
rainhas. No meu caso, todo o conhecimento do que ocorre no parto
e das posições facilitadoras até criou um conflito
com a parteira (exceto na hora do sangramento, pois, se fosse um
"inimigo", me engambelaria facinho para uma cesárea).
À lista de discussão na internet, materna-sp. Como
o Gustavo já mencionou no seu agradecimento à lista,
foi muito importante ler os relatos de parto e as discussões
sobre os falsos argumentos para cesáreas. Isso nos deu ainda
mais segurança.
E ao nosso filho, que foi bem corajoso e também veio à
luz com suas próprias pernas. Enfim, depois de 20 dias de
várias indecisões e de quase Caubi, nosso querido
teve um nome: Cauré, nome indígena e nome de um falcão
brasileiro_ a ave da fortuna e dos feitiços de amor.
(Relato terminado dia 24 de janeiro de 2006)
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