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HISTÓRIA DO PARTO DA LIS Na verdade,
este parto começou a ser gerado há quase 4 anos, após o nascimento do meu primeiro
filho, Miguel, por cesárea. Naquela época, por sugestão da Rox, minha primeira
obstetra , comecei a participar da lista Amigas do Parto, e através das discussões
da lista aos poucos fui questionando tudo aquilo que aprendi durante os anos de
faculdade de medicina e na prática da neonatologia. Foi um processo lento, penoso
e irreversível. Através da lista, fui abandonandoa idéia do
parto como algo perigoso e necessitado de inúmeras intervenções médicas. Assim,
antes mesmo de engravidar novamente, já estavamos decididos pelo parto em casa,
assistido por uma parteira. Isso era uma coisa que eu fazia questão: nesta altura
eu já estava convicta que a grande maioria dos obstetras não está capacitado para
atender a um parto natural sem intervenções são os vícios da nossa formação,
que privilegia o uso indiscriminado da tecnologia.
Através da Ana Cris, conheci a parteira que procurávamos:
experiente, dedicada, sensível, sintonizada com a força da natureza
e com o significado espiritual do nascimento de uma criança. Assim
que comecei o pré natal com a V., na metade da gravidez já fui surpreendida
pela diferença da abordagem. Ao contrário dos médicos,partíamos
sempre do princípio que estava tudo bem comigo e com o bebê, e não
o contrário.
Foi uma gravidez ótima, nunca fui ao médico,
fiz pouquíssimos exames apenas o básico e um único ultrassom com 24 semanas,
quando soubemos que esperávamos uma menina. Eu, que nunca imaginei ter uma filha
(sempre achei que teria outro menino) percebi então a oportunidade que se apresentava:
eu renasceria como mulher ao dar à luz minha filha. Minha
data provávael do parto era 25/09, mas eu sempre tive a sensação que o bebê viria
dia 24. Poucos dias antes, entrei em licença e comecei a desacelerar. Estávamos
terminando uma reforma na casa e eu ainda não havia organizado as coisas do bebê.
Pretendia aproveitar estes dias para isso, mas acabei não fazendo muita coisa.
Meu corpo pedia descanso antecipando o que estava para vir. No
dia 22, acordei bastante incomodada,com contrações indolores mas muito frequentes.
À tarde, meus pais ( que nem imaginavam que o bebê nasceria em casa) vieram de
Minas trazer o Miguel. Na verdade, eu havia planejado deixá-lo na casa dos avós
durante asemana para ter mais tranquilidade durante o trabalho de parto, mas surpreendentemente,
ele que adora ficar com a avó, pediu para voltar depois de 1 dia porque Oa irmãzinha
ia nascer".
Lá pelas 20 horas liguei para a minha doula para bater
papo. Comentei que achava que o parto seria dia 24 e ela apostou
na outra semana. Às 22 horas,a bolsa rompeu e as contrações
aumentaram de intensidade e ficaram regulares. Liguei para a parteira
e minha doula ( que ainda achou que era brincadeira!) e começamos
a arrumar o cenário: arrastamos a cama, trouxemos o colchonete,
acendemos as velas, escolhemos os CDs. Depois da meia noite, a super
equipe chegou.
Comentário aliviado do Fernando : "não é que o negócio
funciona mesmo? Tá todo mundo aqui!¹ Eu achava que a evolução do
meu trabalho de parto seria rápida,já que no parto do Miguel cheguei
a 7 cm em cerca de 5 horas. Lembro de ter pensado "errei a data,
amanhã cedo minha menina já terá nascido". Quando a parteira me
examinou, levei um susto: colo do útero grosso, 1 cm de dilatação.
A noite ia ser longa. Fizemos uma massagem, eu ainda
tentei dormir um pouco, mas não consegui. Acabei indo para a cozinha
conversar um pouco. As contrações estavam aumentando e a parteira
sugeriu que eu fosse para a banheira para relaxar um pouco. Fiquei
horas na banheira, ouvindo música, à luz de velas. Apesar das dores,
eu me sentia feliz, sintonizada com o meu corpo.
Pensava na minha avó, que pariu 12 filhos em casa
, e em todas as mulheres antes dela. Tudo estava como deveria ser,
e eu me senti grata por poder viver esta experiência em casa. Durante
a madrugada, as contrações foram ficando bem fortes, mas a dilatação
progredia lentamente. De manhãzinha, estava com 4 cm, basatante
cansada e com muita dor. Resolvi deitar um pouco,cheguei a cochilar
entre uma ontração e outra. Na hora do almoço, a parteira sugeriu
que eu decesse um pouco, me movimentasse, andasse no sol, mas eu
estava completamente sem energia, desanimada, mal conseguia me mexer.
O pessoal foi almoçar, mas eu nem podia pensar em comida.
A parteira então apareceu com um prato de comida e
praticamente me obrigou a comer . Comi um pouquinho, mais para não
ficar chato do que por estar com fome, e imediatamente senti alguma
coisa mudar. Fiquei bem mais animada, tomei um banho, desci para
a sala, consegui conversar civilizadamente com o JK, que havia chegado
de São Paulo para ver se conseguia assistir um parto domiciliar.
A parteira preparou uma "poção" com homeopatia para melhorar o ritmo
das contrações, e elas passaram a ser mais frequentes porém mais
curtas e suportáveis.
Fui caminhar no quintal,
tomar sol,mexer a bacia. O Fernando e eu ficamos dançando na grama,ele me afirmando
o tempo todo que tudo daria certo, que eu ia conseguir ter o nosso neneém em casa,
como a gente queria. Também fiquei um bom tempo sentada na bola suíca e também
de cócoras, pendurada na rede. À tardinha, tomamos um lanche, e as contrações
voltaram a doer bastante. À noite, um novo toque: 7 cm! Todo
mundo comemorou, fiquei muito animada, continuei alternando exercícios na bola
e caminhadas. Minha tia Fátima e minha prima Sophia chegaram de São Paulo para
dar uma força com o Miguel e assistir ao parto. Lá pelas 11 da noite, fui deitar
um pouquinho com o Miguel para fazê- lo dormir. Tive umas contrações punks (sem
poder gemer muito para não assustar o menino) e quando levantei,estava com uma
tremedeira incontrolável.
A minha doula comentou que eu devia estar na transição,
e me levou para o chuveiro quente, onde deu para dar uma relaxada.
Por volta da meia noite, a dilatação já estava completa, com um
pequeno rebordo de colo, que a parteira tentou reduzir com a mão
em todas as posições possíveis, me fazendo ver estrelas de tanta
dor. Minha intuição portanto estava certa: minha menina nasceria
dia 24. Lembro da parteira dizendo: "quer fazer nascer ou prefere
descansar um pouco?" Como assim, descansar? E comecei a fazer força
em várias posições de lado de quatro, deitada de cócoras. As horas
foram passando, a dor beirava o insuportável.
Tudo doía: os ossos da bacia, a perna , a barriga.
Se eu estivesse no hospital,nessa hora teria pedido analgesia com
certeza - aliás, teria pedido bem antes. Ainda bem que não estava!
A parteira, a doula e o Fernando se revezavam fazendo massagem nas
minhas costas nas contrações. Perdi a noção do tempo e nem sei que
horas eram quando a parteira me examinou de novo e disse que a neném
estava defletida. Nesta hora, fiquei deseperada. Embora ninguém
tenha jamais sugerido tal coisa, achei que teria que ir para o hospital,
porque todos os bebês defletidos que eu já vi ou acabaram em cesárea
ou fórceps.
Daí para a frente, chutei o balde: gritei, chorei,
xinguei todo mundo, falei que não aguentava mais. Voltei para o
chuveiro, sentada na bola. Perguntei para a parteira: "e agora,
o que a gente vai fazer?"e ela, na maior calma, disse que estava
tudo bem, que eu precisava mexer o quadril, gritar se tivesse vontade.
Obedeci, fiquei lá no chuveiro com a minha doula, depois com a minha
tia, alternando entre cantar e gritar durante as contrações.
Na verdade, eu já nem
distinguia mais o que era contração, tudo doía o tempo todo! Experimentei ficar
de cócoras durante as contrações, segurando nas mãos da Fátima,que cantava um
mantra que falava da força da natureza. Saí do chuveiro, sentei no vaso e de repente
senti vontade de fazer força, um puxo. Nem acreditei,parecia que o bebê estava
descendo, finalmente. Chamamos todo mundo, e eu resolvi ficar no banheiro (estava
dando certyo, ia ser ali mesmo).
O J. trouxe uma cadeirinha de parto, eu me sentei
nela, apoiada atrás primeiro pela doula, depois pelo Fernando. A
vontade de fazer força era incontrolável, ao mesmo tempo uma impressão
horrível de que vai arrebentar tudo. A minha doula falou: "é só
uma impressão, não vai rasgar nada. Agora é a hora do"foda-se",
vai nascer" . Eu senti perfeitamente o bebê entrar na bacia,girar.
Continuava doendo muito, mas agora era diferente,estava nascendo,
eu me sentia cheia de energia. A parteira colocou minha mão e a
do Fernando na cabecinha do bebê, já estava uma boa parte para fora,
que bom!
De repente, uma força grande, a parteira ainda tentou
segurar para a cabeça sair devagar, mas não deu: a bebê saiu com
tudo, mãozinha na bochecha e circular de cordão. O tempo parou.
Primeiro, a sensação que eu tive é que a parteira tinha empurrado
a bebê de volta. Só depois entendi que tinha nascido. Peguei minha
filha no colo, ela veio de olhos abertos, chorou um pouquinho.
Olhei para
as pessoas, que estavam emocionadas, chorando: O J. com o celular, transmitindo
o nascimento para a esposa, a minha doula, que não assistiu ao nascimento (foi esquentar
uma compressa para o períneo lá na cozinha, a pobre), minha tia e minha prima,
com a filmadora, o Fernando me abraçando. Eu não sentia vontade de chorar , me
sentia vitoriosa, poderosa, redimida.
Com este parto, eu me perdoei pela cesárea que sofri.
Olhei para minha filha,uma menina, nascida com a força da natureza,minha
cura, que será um dia mulher e passará pela maravilhosa experiência
de parir um filho. Como eu, minha mãe e minha avó parimos. Como
todas as mulheres antes de nós. Um ciclo se fecha e recomeça hoje,
com o nascimento da Lis, nome que significa lírio, ao amanhecer
no início da primavera. E não tem como não agradecer a quem é devido.
À Rox, por me mostrar o caminho. Ao Fernando,pelo apoio e pela firmeza
na hora certa. À minha doula, que até hoje me surpreende pela dedicação,paciência
e idealismo. Ao J., pela delicadeza, atenção e por me mostrar que
nossa profissão ainda tem jeito. À minha parteira, que tornou tudo
possível, pela sensibilidade, confiança, competência. Por acreditar
nessa missão sagrada.
Leia
também o depoimento do pai, Fernando.
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