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Com uma jornada de 16 horas por dia de trabalho, sempre foi dificil
participar da lista escrevendo, mas sempre li e isso fez toda diferença na qualidade
do meu parto. Há quase treze anos atrás tive meu primeiro parto. A certeza da
minha condição fisica e emocional para ter um parto natural achei que bastaria
para que acontecesse assim. Mas não. Quando estava para entrar
na 40 semana eu vi um fluido rosado na minha calcinha, liguei pro medico que pediu
para ir urgente para seu consultorio, ja com a mala pronta para maternidade. Ele
me examinou e disse que eu tinha um furinho na bolsa e se quisesse parto natural
teria que ser induzido o mais rapido possivel. Fui para o São Luiz e da-lhe ocitocina.
Em oito horas dilatei 4 cm. Ele disse que estava demorando
muito e que meu bebe poderia entrar em sofrimento e me "sugeriu" uma cesaria para
que tudo pudesse dar certo. Fiquei meio tonta e aceitei. Correu tudo bem, superei
a frustração da cesaria com a chegada tão desejada do meu filho, mas quando meu
filho nasceu, as enfermeiras levaram ele dali e isso me enlouqueceu. Eram duas
da manhã e elas disseram que ele ficaria no minimo seis horas no berçario. Magicamente
me "recuperei" da cesaria em algumas horas e com a ajuda do pai do meu filho fui
até o berçario pedir o meu filho de volta. Foi a maior briga, até que assinei
um documento muito ameaçador e pude ter meu filho comigo. O medico voltou na manha
seguinte e a minha primeira pergunta foi : quando é que eu vou embora? Com esse
historico aprendi que o parto natural não é tão simples assim. Novo casamento
e um desejo enorme de engravidar de novo. Tres meses depois
da decisão, engravidei, e meu marido me pergunta se eu não toparia ter um filho
em casa. Adorei a ideia, não gostaria de viver de novo o "sequestro" do meu filho
logo apos o parto. Assim procurei informações até chegar na minha doula. Tivemos
um encontro e ela super me incentivou a um parto em casa. Ela me indicou duas
parteiras que trabalham em São Paulo assim como o Dr. Julio que atende pela Unimed,
meu convenio. Fiz meu pre-natal com o Dr. Julio e com a Vilma,
que trabalham muito bem juntos. Com 38 semanas, fiz o curso de preparação com
a minha doula. No domingo, depois que ela passou o video da Naoli, meu marido resolveu
que ele faria o parto e a Vilma seria sua assistente. Naquele mesmo dia meu filho
(12 anos) reclamou de mal estar e dores no baixo abdominal. Meu marido tinha espetaculo
com sua peça de teatro, mesmo assim resolvi ir sozinha com meu filho ao pronto
socorro. Era apendicite e ja estava em estado grave, ele foi imediatamente operado
e o medico disse que mais algumas horas e ele iria para UTI. Fiquei
com ele seis dias no hospital, saí do hospital com uma anemia profunda no nivel
de transfusão de sangue, ja com 39 semanas. O Dr. Julio( que foi impecavel durante
todo o pre-natal e torceu muito para que eu tivesse meu parto em casa) optou por
um tratamento radical com alimentação e injeções de noripurum. 40 semanas e pego
uma gripe de derrubar. Dores por todo corpo, não tinha força nem para levantar
quanto mais para um TP. Comecei a ficar preocupada com a possibilidade
de não entrar em trabalho de parto. Mas ao mesmo tempo tinha sonhos lindos. A
cada sonho um preparo maior para o parto. E assim foram todas as noites. A um
dia de completar 41 semanas acordei com a certeza que seria aquele dia. Mas só
la pelas dez da noite é que comecei a sentir as contrações mais regulares. Acreditava
estar com a anemia controlada e ja me sentia bem da gripe porem meu marido naquele
dia baqueou, foi para cama com febre alta, gemendo de dores por todo corpo. Sozinha,
comecei a prestar atenção nos tempos das contrações, me assustei quando percebi
que estava tendo uma a cada dois minutos. Liguei para Vilma, ela chegou em meia
hora, fez um exame de toque e eu estava com 3 cm de dilatação. Então as contrações
começaram a vir muito fortes e a cada minuto. Duas horas depois pedi para Vilma
examinar porque achei que ja tinha chegado a 10 cm, mas estava com 4cm. Ali eu
percebi que a noite iria ser longa e trabalhosa. Como eu tenho
4 miomas, concluimos que o utero estava bem irritado e por isso eu não tinha intervalo
entre as contrações, eram só ondas sem intervalos e muito doloridas. Como trabalho
com tecnicas corporais achei que tinha que aproveitar aquele momento unico e comecei
a experimentar. Dancei, me pendurei, delizei pelo chão, senti que em vinte anos
de trabalho, nunca aprendi tanto sobre o corpo como naquelas oito horas. A
Vilma assistia a tudo lamentando não ter uma filmadora. Quando cheguei aos 9 cm,
ja não podia me mover durante o pico das contrações, subimos para o meu quarto
e meu marido acordou apesar do pessimo estado, meu filho acordou tambem e venho
para o quarto. Foi mais uma hora e meu marido apesar de seu estado me segurou
nesta ultima hora, a Vilma até saiu do quarto. Chegou a hora!!!
fiquei de quatro, mas tinha alguma coisa emperrando, a Vilma sugeriu que eu deitasse
de lado e segurasse meu joelho contra a testa. E ali fiz toda a força do mundo.
Queimou muito, achei que eu fosse me abrir inteira. Olhei para o meu filho e ele
sorriu, nem meu filho, nem meu marido sentiam pena de mim, e isso me ajudou muito.
A Vilma disse que não daria para ser um expulsivo lento e
pediu para eu fazer muita força porque tinha que nascer logo, pois o bebe ja estava
com a cabeça bem encaixada e ja se nenhum liquido por um tempo. E aí veio, pus
a mão na minha vagina, senti sua cabeça e chamei meu bebe para o mundo falando
muito alto e com muita força e convicção, ainda não sabia o sexo do bebe. Nasceu,
olhei meu filho e meu marido e os dois choravam emocionados e paralisados. Uma
menina! gritou meu marido. Peguei ela no colo, ainda sentia muita dor. Ela ficou
comigo agarradinha. Meu marido cortou o cordão e esperamos a saida da placenta,
que foi enterrada no jardim. Na hora do parto surgiu o nome na mente do meu marido,
um nome que nunca tinhamos pensado, mas surgiu de maneira tão espontanea e forte
que não tivemos duvidas, Franciska, que nasceu dia 4/05/06, com 3950kg e 53 cm.
Seu corpo estava coberto de meconio, mesmo assim seu apga foi 9/10. Tive
uma laceração importante, depois de cinco dias vimos que eu estava toda aberta
pois rejeitei o fio dos pontos, tivemos que refazer os pontos porem com a inflamação
a anestesia não pegava. E tudo isso não tirou nem um pouco o momento maravilhoso
que vivemos neste parto tão intenso e lindo. E que eu estou até hoje colhendo
os frutos desta vivencia. As reflexões que este parto me levou
foram bem diferentes do que eu imaginava. Para mim ficou claro o poder que o parto
natural, por ser tão potente e ligado a natureza, tem de nos aproximar de uma
realidade possivel porem muito distante. Nosso modo de vida está muito separado
do que podemos viver, sentir e realizar. Um parto natural, sem nenhuma intervenção,
não combina com um modo de vida em que se acredita que a dor é sofrimento, ou
um modo de vida em que se recorre a um analgesico e outras maneiras paleativas
de sanar o efeito sem trabalhar a causa de um problema. Sinto
agora que o parto natural possa ser uma porta de volta a um contato maior com
a nossa potencia. Mas me parece que uma mulher que esteja investindo em uma maneira
de viver muito distante do que sua natureza pode, deva mesmo preferir um parto
cheio de intervenções. Eu achei essencial viver as 8 horas de trabalho de parto
e sentir todos seus estagios. Não trocaria esse parto por um indolor. Foi um lindo
ritual que despertou e fortaleceu um modo de vida que eu venho buscando e que
foi coroado por uma linda menina, a Franciska. Um abraço Ana
T.
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