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TODOS OS MEDOS Sempre quis ter um filho, mas a idéia do nascimento
em si ainda era um tabu para mim. Eu ficava pensando em como faria quando chegasse
a minha vez de parir, por onde o nenê passaria. Cesárea? Eu tinha
muito medo (e tenho até hoje) de cirurgias, anestesias, cortes, pontos,
injeções, agulhas...Não conseguia me imaginar deitada em
uma maca, com um médico abrindo a minha barriga e depois costurando de
volta. Só de pensar me davam arrepios. Eu fujo de médicos, não
gosto de tomar remédios e me dá pavor em pensar em procedimentos
invasivos, em gente me abrindo, me espetando, me costurando. Parto normal?
Também tinha medo. Nunca gostei de ir ao ginecologista e nem de fazer exame
papanicolau. Dias antes das minhas consultas anuais ao ginecologista, eu mal conseguia
dormir de nervoso. Então, tinha a brilhante idéia de adiar as consultas
sempre. Também costumava inventar, já no consultório, que
estava menstruada, só para fugir do exame. O pavor era tanto que quando
fazia o exame, suava tanto que o hidratante que havia passado nas pernas, escorria.
Um verdadeiro vexame. Por tudo isso que contei, para mim era um grande
mistério ter um filho, pois temia muito as alternativas que existem para
que uma criança venha ao mundo. A GRAVIDEZ E O ADMIRÁVEL MUNDO
NOVO Quando fiquei grávida, foi um misto de alegria e temor ao mesmo
tempo. Pensava comigo mesma: "E agora, como vai ser?". Para minha sorte,
uma prima muito próxima também estava grávida, e ela começou
a me mandar e-mails sobre gravidez e parto. Através desses e-mails fui
me interessando cada vez mais pelo assunto e passei a pesquisar pela Internet
tudo sobre parto normal e cesárea. Apesar de eu ser uma pessoa bastante
curiosa e investigativa, admito que se não tivesse tido esse "empurrãozinho"
da minha prima, eu não teria ido atrás e não teria encontrado
tanta informação sobre o tema. Às vezes a falta de tempo,
a correria do dia a dia e os velhos hábitos de sempre, fazem com que a
gente aceite as informações já existentes e não descubra
o que existe de novo. Sorte que me interessei pelo assunto e um mundo novo
foi se escancarando à minha frente. Li livros, pesquisei sites, descobri
o GAMA (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), fiz cursos, conheci a minha
doula (a querida que me acompanhou no parto) e com tudo isso, minha cabeça
se abriu definitivamente para o parto normal. Fui aprendendo que não precisaria
de remédios, cortes, costuras, nada daquilo que eu tanto abominava. Fui
aprendendo que a dor que eu tanto temia poderia ser minimizada com muitos recursos
práticos, entre os quais massagens, uso da água quente e que poderia
ter total mobilidade no trabalho de parto. Também poderia contar
com a presença de pessoas queridas na hora do parto, um ambiente tranqüilo
e acolhedor e uma equipe de confiança afinada com os meus ideais. Saber
que eu poderia ser protagonista do meu parto, que eu poderia parir sem nenhuma
intervenção foi uma grande descoberta. Se meu corpo era são
e perfeito para gerar uma vida, ele também o era para trazê-la ao
mundo. Confesso que ainda sentia um pouco de medo da dor, mas diante de tantas
informações novas, eu estava realmente disposta a enfrentar o que
viesse. A GRAVIDEZ Foi muito tranqüila, não tive enjôo,
mal estar, nada disso. Não deixei de fazer as atividades que tinha antes
da gravidez, saí bastante, viajei, fui no show dos Rolling Stones no Rio
de Janeiro já com um barrigão. Não bebi, não fumei,
comi muito (muito mesmo) chocolate, fiz drenagem linfática, yoga, passei
muito creme no corpo, tomei bastante água, fiz luzes no cabelo, escova
progressiva sem formol, usei bastante vestido e sandália baixa, dormi bastante,
fiz reforma em casa com 8 meses de gravidez, dirigi e trabalhei até o dia
em que meu filho nasceu. Quase no sétimo mês de gestação
conheci o Dr. AJ, e eu e o Paulo, meu marido, decidimos que ele nos acompanharia
nos meses que faltavam e na hora do parto. Eu já fazia acompanhamento com
uma médica, mas senti que precisava da confiança de um médico
como ele para o parto normal. Logo na primeira consulta senti que o Dr. AJ foi
muito transparente e percebi que era esse o tipo de médico que procurávamos.
Decidimos que a presença de uma doula seria fundamental, e minha doula
foi nossa "anja" nessa empreitada. Também conhecemos o Dr.C.,
neonatologista "do bem" que nos ajudou a trazer o nosso filho ao mundo.
Ainda assim sentia um pouco de medo, mas era aquele famoso medo do desconhecido.
Não conhecia meus limites para dor, o quanto eu poderia ou não suportar
de dor, e isso me assustava um pouco. Só saberia na hora "P"
mesmo. O DIA "P" Logo às 8 da manhã no trabalho
comecei a sentir contrações. Eram como todos diziam, uma cólica,
parecida com a de menstruação. Não levei muito a sério,
pois tinha ido ao médico no dia anterior e estava apenas com 1 cm de dilatação.
Dr. AJ ainda estava gripado, torcendo para que não houvesse nenhum parto
naqueles dias e me tranqüilizou dizendo que meu bebê chegaria mais
para o final da semana. Em todo caso, resolvi anotar os intervalos, pois elas
estavam freqüentes. Fiquei a manhã inteira assim, anotando os intervalos,
elas ocorriam de 15 em 15 minutos, de 20 em 20 minutos e eram totalmente suportáveis.
Fui almoçar, comi um sopão de legumes e durante o almoço
as contrações continuaram. Estava com o meu pai e o meu irmão
(trabalhamos todos juntos) e cheguei a comentar com eles, mas eu mesma não
achava que estava em trabalho de parto. Trabalhei a tarde inteira sentindo as
contrações e lembro que o Paulo chegou a ligar para a minha doula,
que pediu que continuasse a monitorar os intervalos das mesmas. Lembro que não
consegui fazer isso a tarde toda, tinha muito serviço e já estava
treinando uma pessoa para assumir o meu cargo na minha ausência. Também
liguei para a minha doula e me despedi dizendo que mais tarde a encontraria na
reunião do GAMA (haveria reunião com as mães de Junho naquela
noite). No fim da tarde cheguei em casa e aí sim, as contrações
foram ficando mais intensas. O Paulo ainda estava trabalhando e eu estava sozinha
em casa. Fui tomar um banho e tentava amenizar as dores com a água quente
do chuveiro. Tentava andar pela casa, mas na hora que as contrações
"chegavam" eu não encontrava posição que me confortasse.
A única posição que me dava um certo alívio era sentada
no vaso sanitário. Eu sentava e parecia que eu estava fazendo xixi, pois
sempre saía água. Era a bolsa estourando, mas eu já não
conseguia atinar nada, só fui pensar que era a bolsa estourando muito tempo
depois. Nesse meio tempo, eu telefonava para a minha mãe, que apavorada,
achava que o bebê ia nascer no vaso sanitário. Lembro dela dizendo:
"Patrícia, liga para o médico agora, pois esse nenê vai
nascer na privada!!". Minha mãe estava bem nervosa e ligou no celular
do Paulo, pedindo que ele viesse logo para casa. O Paulo estava a caminho
do supermercado, mas logo desviou o caminho e veio para casa. Assim que ele chegou,
foi como mágica: as contrações realmente foram ficando muito
intensas, em intervalos curtos e com bastante duração. Eu entrava
no chuveiro, saía, sentava no vaso sanitário, ia para a cama, tentava
dormir ( já tinha lido em relatos de parto que algumas mulheres dormiam
) e não conseguia.O tampão caiu numa dessas idas ao chuveiro e foi
aí que realmente a "ficha" caiu, meu filho estava chegando. Enquanto
tudo isso acontecia, o Paulo estava na área de serviço telefonando
escondido para a minha doula e para o Dr. AJ. Eu não queria que ele telefonasse,
pois fiquei com receio de incomodar, de deslocá-los e estar com 2 ou 3
cm de dilatação apenas. Como eu não conhecia meus limites
para dor, temia estar com pouca dilatação. Minha idéia era
passar o máximo de tempo em casa e chegar no hospital dilatada em aproximadamente
5 cm. Passamos a monitorar, via telefone com a minha doula, os intervalos entre
as contrações: eu, lá do chuveiro, gritando e o Paulo com
ela no celular. Não me lembro de quantos em quantos minutos as contrações
aconteciam, mas os intervalos estavam bem curtos e a minha doula veio para casa.
Ela disse para o Paulo avisar na portaria a sua chegada, assim ela pouparia tempo
e foi aí que o Paulo começou a ficar preocupado. Ela chegou muito
rápido e fez o exame de toque que constatava 7 cm, quase 8 cm de dilatação.
minha doula chegou a cogitar o parto em casa, mas preferi ir para o hospital,
já que o Dr. AJ estava de sobreaviso. Saímos correndo de casa, eu
de camisola, uma blusa por cima, calça de moletom e havaianas. A minha
doula temendo que o bebê nascesse no carro pediu uma toalha. O Paulo saiu
correndo e pegou uma toalha nova, branca, e eu, super consciente ainda tive tempo
de implicar que queria a toalha verde, mais velha! Nesse momento a "ficha"
caiu para o Paulo: nosso bebê estava chegando e ele poderia nascer no banco
de trás do nosso carro! Já no caminho, tivemos a sorte de
encontrar um carro do CET, que ao saber da nossa situação, nos guiou
da avenida até o minhocão. Lá chegando, abriu os cones do
minhocão, que já estava fechado ( era pouco mais que 21:30 hrs )
e tivemos o minhocão livre para nós. Chegamos no São Luiz
muito rápido, paramos o carro na frente e desci correndo para a sala de
parto segurando a minha barriga. Não fiz ficha, não dei boa noite
para o segurança, apenas saímos todos correndo para a sala de parto,
onde já nos esperavam o Dr. AJ e o Dr. C. Tirei a roupa rapidamente e logo
entrei na banheira. Fiquei lá com a minha doula ao meu lado, conversando
e me confortando o tempo todo. Ela colocou uma toalha quente no meu peito e me
senti super confortada, apertando a mão dela nos momentos de contração
intensa. Eu sabia qual seria o desfecho, que era o meu bebê em meus braços,
mas não conseguia imaginar como seria aquele momento. Decidi viver apenas
o presente imediato, que era cada contração que eu sentia. Lembro
que a minha doula me dizia a cada contração: "é menos
uma, querida", e de como era bom ouvir aquilo. Imaginava cada contração
como um esforço para que meu bebê chegasse ao mundo. Saí
da banheira e lembro que o Dr. AJ fez outro exame de toque, mas não lembro
com quanto estava, mas já estava tudo bem adiantado. Fiquei de cócoras
no banquinho, o Paulo me segurando por trás. Sentia as contrações,
mas ainda não tinha vontade de fazer força. Eu gritava bastante,
não conseguia me controlar. Fiquei preocupada com meus pais, que a essa
altura, já estavam do lado de fora esperando. O Paulo de vez em quando
saía e dava notícias a eles. Cansei de ficar de cócoras,
tentei ficar de quatro, ficar de lado e acabei me ajeitando na posição
convencional, mas meio inclinada, sentada. Sentia muito frio e me deram
um cobertor. Eu olhava para todos e pensava que aquele momento era único,
estavam todos lá para me ajudar, mas só eu sentia a tudo aquilo,
tudo dependia exclusivamente de mim. Cheguei a invejar (inveja branca viu Dr.
C? ) o Dr. C, que estava meio adormecido no sofá. Ah, como eu queria ser
o Dr. C naquele momento! O Paulo tentava me confortar, queria contar piadas, estórias
nossas... tentou contar que eu havia comido há alguns dias atrás
um quilo de trufas de chocolate. Ele não teve chance de falar, eu não
podia ouvir nada, queria me concentrar apenas naquele momento. Já
víamos a cabecinha dele, super cabeludo, cabelos pretinhos. Foi então
que o Dr. AJ ficou do meu lado e disse que tudo estava dependendo exclusivamente
de mim. E logo senti vontade de fazer força e trazer meu filho ao mundo.
Na minha cabeça tudo acontecia de forma muito rápida e pensei assim:
"agora ele vai chegar, já está tudo terminando, vou fazer bastante
força para ele vir logo". Quando a cabecinha passou, senti
aquele famoso "círculo de fogo" que falam, é uma quentura
e você sente que está se abrindo, difícil explicar. Depois,
os ombros e o corpinho, que nem senti. Segurei meu filhote nos braços e
fiquei atônita, ele era lindo, perfeito, olhos abertos para mim. Não
consegui chorar, fiquei sem reação. Contei os dedinhos das mãos,
dos pés, vi a pele perfeita, aquele monte de cabelo pretinho: a minha vida
estava ali. Pedro nasceu à 1:19 da manhã, do dia 07/06/2006,
medindo 49 cm e pesando 3.260 kg, Apgar 9/ 10, uma circular de cordão e
uma circular no pulso. Mamou por 2 horas seguidas e não queria de jeito
nenhum sair do peito. Não precisei de episiotomia e tive uma laceração
que não foi importante. Dr. AJ sugeriu alguns pontos, mas pedi que não
o fizesse, quis que fechasse naturalmente e foi assim que aconteceu. Não
pedi analgesia, em nenhum minuto pensei nessa opção, apesar das
fortes contrações. Não sei explicar porque não pedi,
mas todo o meu histórico de medo talvez explique. A minha doula disse que
pensou em oferecer, mas como eu não havia pedido... Sábia doula! Só
depois pude reparar direito no clima daquela sala. Estava à meia luz e
no teto, luz de cromoterapia na cor verde, incenso aceso e meu filho tomando banho
na tummytub pelas mãos do Dr. C e do Paulo. Ao redor, meus pais, meu irmão
e minha cunhada. Pedro de olhos abertos, imerso na água, olhando para todos.
Dias depois, meu pai me contou que quando entrou naquela sala, ficou arrepiado
com a atmosfera de respeito e paz que reinava ali. E disse que a imagem do neto,
de olhos abertos, imerso na água, foi a cena mais linda que ele já
viu na vida. Já não sinto mais medo da dor do parto, e sinceramente
já até esqueci como é. Alguém uma vez me disse que
a dor do parto é a dor que traz a vida. Não encontro definição
melhor. Naquela madrugada do nascimento do meu pequeno, não consegui dormir.
Fiquei deitada na cama, olhos vidrados, pensando no que tinha acabado de acontecer.
Estava muito orgulhosa de mim mesma, ficava relembrando as cenas e me beliscando,
dizendo a mim mesma que era eu que tinha feito tudo aquilo. Ah, ainda tenho
medo de papanicolau. Na despedida daquela madrugada, o Dr. AJ disse que me presentearia
com 2 papanicolaus por ano. Presente de grego, recusei na hora! SEM ESSAS
PESSOAS...TUDO SERIA DIFERENTE. PAULO: Sem você, eu não sou nada,
não sei nada e não faço nada. É a luz no meu caminho. TAISA
RIBEIRO: Prima querida, que me mostrou o caminho, me deu as coordenadas com o
seu jeito doce, porém forte. Sem ela, minha história seria outra. Minha
doula: Pessoa fundamental, sem a sua presença não teria conseguido.
Tive apoio e carinho. Esteve comigo o tempo inteiro, me transmitindo a paz e a
confiança de que eu precisava. A sua simples presença me fez acreditar
que eu era capaz de parir. Dr. AJ: Meu grande achado. Transmitiu-me confiança
desde a primeira consulta. Sua calma, paciência e compreensão foram
essenciais para mim. Voltar para
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