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A Maya nasceu no dia 17 de setembro de 2006 às 15:11h. Antes disso precisei
renascer. Somente após os nossos "partos" de renascimento, eu
e o Edgar fomos capazes de trazer a nossa Maya à luz. Relato aqui um pouquinho
dessa história. Tenho 29 anos e sempre fui muito superprotegida e
mimada pelos meus pais. Acredito que este foi o melhor jeito que encontraram de
dar amor, mas essa superproteção me fez insegura e com um grande
medo de fazer as coisas à minha maneira. Escrevo isso para deixar claro
que contrariar os meus pais e, em especial, a minha mãe, sempre foi dificílimo
para mim. Sentia-me incapaz. Não que nunca tenha feito isso, mas talvez
nunca tenha contrariado em algo tão essencial quanto a gestação
de uma criança. Além disso, a minha mãe viveu durante sete
anos sob uma depressão muito profunda, tendo a mim como elo para a vida.
Até bem pouco tempo atrás essa situação influenciava
muito nas minhas decisões. Outro ponto relevante na minha vida são
as brigas com o meu corpo. A minha mãe acha que criança saudável
é criança com muitas "dobrinhas" e "fofinha",
assim, a nossa casa sempre foi cheia de doces, guloseimas e muita comida. Desde
a infância sofro as conseqüências de ser "gordinha",
por isso passei a vida lutando contra o meu corpo, vivendo de dietas, remédios
para emagrecer e mil coisas que me ensinavam. Deste modo, quando li o relato
do aborto retido da Thaís me identifiquei muito. Essa coisa de sempre ser
excluída nas aulas de educação física por ser lenta
e não conseguir superar os limites do corpo foi sempre muito presente na
minha vida. Assim como ela, também optei em ser inteligente para compensar
essa "deficiência". O relato da Thaís me deu muita força
para confirmar a opção pelo parto normal. Os meus pais são
dentistas e moram em Araçatuba, minha cidade natal, a 550 km de São
Paulo. Desde o início da gravidez até o nono mês eles insistiram
e pressionaram para que eu fosse ter a Maya lá, com a "segurança"
de uma cesárea programada. Cheguei a receber e-mail do gineco que sempre
me atendeu, muito amigo da família, disponibilizando-se a me atender. Agradeci
e recusei porque queria ter o parto normal. No final da gravidez, quando viram
que não teria jeito, minha mãe sugeriu um obstetra daqui de São
Paulo, um primo distante nosso. Fizemos o nosso pré-natal com o Dr. Jorge
Kuhn, não poderíamos estar mais bem amparados, mas isso não
importava. Não temos plano de assistência médica. Em
princípio, após uma via sacra em maternidades e casas de parto,
resolvemos que o parto seria no Nossa Sra. de Lourdes com a assistência
do Dr. Jorge, apesar de simpatizar com a idéia de parto domiciliar. Mas,
infelizmente, no oitavo mês de gestação, o Edgar perdeu o
seu trabalho repentinamente e eu, que sou autônoma, já não
estava mais recebendo. Ficamos sem qualquer fonte de renda. Precisamos
pensar em novas alternativas, encontrar soluções que não
comprometessem demais o nosso orçamento no pós-parto. Após
um período de indefinição entre casas de parto e hospitais
públicos, resolvemos pelo parto domiciliar com a assistência da M.
e da P.. Decidimos pela nossa casa porque entendemos que aqui seria o lugar mais
aconchegante para receber a Maya, o lugar em que a nossa família se sentiria
plenamente fortalecida e unida. Seria o parto dos sonhos e dentro do nosso orçamento. Tomada
a decisão, precisávamos apenas driblar familiares e amigos, principalmente
os meus pais, que planejavam vir para São Paulo no feriado de 7 de setembro,
exatamente a DPP pela última menstruação. Eles não
vieram, mas a Maya também não nasceu. Nossos planos começaram
a ruir quando, antes do feriado, na consulta com a M. e a P., elas tiveram uma
conversa muito franca conosco em que expressaram algumas preocupações.
Eu estava com uma hemorróida grande que poderia piorar no pós-parto.
Estava muito inchada, deveria fazer algumas sessões de drenagem linfática
com urgência. Engordei quase 30 kg na gravidez, logo o meu corpo
dava sinais de que não cooperaria novamente. Enfim, elas nos acenaram com
a provável impossibilidade do parto domiciliar. Senti uma sensação
de incompetência e impotência frente ao meu corpo. Mais tarde, chorei.
Chorei muito de raiva e de tristeza. Passei o dia raivosa e depressiva. Com a
ajuda do Edgar me reergui. No dia seguinte comecei a fazer a drenagem linfática
e intensificamos o tratamento da hemorróida. Estávamos obtendo
resultado, mas, na última consulta pré-natal, um dos exames acusou
uma infecção urinária. E lá se foi o parto domiciliar.
Decidimos com a M. pelo parto com plantonista no Nossa Sra. de Lourdes. Como fizemos
o curso de gestantes naquele hospital, avaliamos que dentro do orçamento
previsto, lá teríamos a segurança de ter uma boa assistência
no caso de alguma complicação no pós-parto, além da
companhia da M. ou da A.C. como doula. Na sexta, 15/09, tive um sangramento
por volta das 22 horas. Ligamos para a M., que nos orientou a seguir com urgência
para o Nossa Sra. de Lourdes, onde por coincidência ela estava com a A.C.
e o Dr. Jorge. A obstetra plantonista que me examinou quando cheguei ao hospital
constatou que o meu sangramento era apenas o tampão que havia saído,
no entanto, solicitaria a minha internação já que "não
poderia liberar uma gestante com 41 semanas e alguns dias". Disse que faria
a indução e aguardaria até o final da tarde do sábado
para acontecer o trabalho de parto. Fiz questão de frisar que queria o
parto normal. Ao sair dessa consulta encontrei a M. e a A.C.. Ambas me
perguntaram se queria mesmo induzir ou voltar pra casa. Preferi fazer a indução.
A M. conversou com a enfermeira plantonista e me explicou qual seria o procedimento.
Ela e a A.C. me aconselharam a tentar descansar naquela noite, já que o
trabalho de parto poderia virar a noite seguinte. Após o cardiotoco, eu
e o Edgar permanecemos na enfermaria aguardando o início da indução
e a liberação de um apartamento. Esperamos, esperamos, as horas
passavam e nada de induzirem o parto ou liberarem um apartamento. A M.
e a A.C., que vez ou outra vinham nos ver, começaram a ficar inquietas
pela demora, afinal, se retardassem muito o procedimento o trabalho de parto não
pegaria até o "prazo de validade" estipulado pela médica.
Finalmente, por volta das quatro e meia da manhã, a enfermeira apareceu
para iniciar a indução. Não fosse pela intervenção
dos nossos anjos, M. e A.C., a enfermeira teria realizado o procedimento com a
introdução de oito comprimidos de uma única vez, quando o
correto seria iniciar com dois. Após algum estresse no corredor da enfermaria,
a médica desculpou-se, tentou justificar o erro e a indução
foi iniciada como deveria. Antes de irem pra casa, nossos anjos nos orientaram
sobre os passos seguintes da indução. Resolvemos cochilar ali na
enfermaria mesmo já que apenas prometiam a liberação de um
apartamento. Dormimos até por volta das sete horas, quando iniciou o novo
plantão. Primeiro veio uma auxiliar de enfermagem que mediu a minha pressão,
colocou mais quatro comprimidos e aplicou um soro. Enquanto aplicava o soro, inusitadamente,
ela me perguntou se eu era gestante!!! Respondi "é lógico",
assustada. Mas ela insistiu e me perguntou se eu não era a moça
que tinha perdido os gêmeos. Fiquei apavorada. Perguntei qual era aquele
soro que estava sendo aplicado em mim. Respondeu que não sabia, riu como
quem diz "bobinha" e perguntou se eu estava com medo. Afirmei que era
óbvio que sim. Pouco tempo depois tive um acesso de tosse. Apareceu a médica
do plantão. Expliquei o ocorrido. A médica saiu e logo voltou a
auxiliar de enfermagem que, sem dizer uma palavra, retirou o soro. Detalhe: eu
estava morrendo de fome. Somente me trouxeram o desjejum após muita insistência. Aguardamos
a liberação de um apartamento até o início da tarde.
Estávamos irritadíssimos com o descaso e a noite de sono perdida.
Resolvemos solicitar alta da maternidade, informei à enfermeira que gostaria
de falar com a médica. Mais uma vez nos deixaram esperando, a médica
não apareceu. Tirei a camisola do hospital, recoloquei a minha roupa e
fui me "despedir" da enfermeira. Neste momento chegou a assistente
social, a "bombeira" do hospital, para apagar o incêndio. Relatamos
de maneira bem fundamentada toda a nossa decepção e nossas expectativas.
Falamos das trapalhadas médicas, do atendimento sofrível, do péssimo
serviço de hotelaria (que é a minha formação) e, principalmente,
de como gostaríamos que o hospital procedesse a partir daquele instante.
Funcionou. Finalmente, a médica plantonista deu as caras, colocamos os
pingos nos is também com ela. A partir de então as coisas melhoraram. Após
a transferência para o apartamento, o Edgar veio em casa para buscar algumas
roupas e a bola de ginástica que a M. nos emprestara, aliás, objeto
essencial nos momentos mais dolorosos. No final da tarde as contrações
começaram a doer com mais intensidade. O Edgar massageava as minhas costas
para amenizar a dor. Sentimos que era o momento de chamar a A.C., no entanto,
ao confirmar com a médica se ela teria autorização para nos
auxiliar, fomos surpreendidos com uma resposta negativa. Disseram-nos que
eu só poderia ter um acompanhante: a doula ou o marido. A própria
A.C., por telefone, disse que neste caso a presença do Edgar era mais importante
que a dela. Continuamos nos virando do nosso modo com a bola, o chuveiro e as
massagens. À noite as dores vieram pra valer. Desisti de continuar.
Liguei para a M. e informei que pediria a cesárea. Quando, no entanto,
solicitei a operação à plantonista, ela se recusou a fazê-la
sem uma indicação médica para isso. Durante a madrugada as
contrações tornaram-se quase insuportáveis. O Edgar cochilava
sentado na cadeira ao lado da cama, a cada aviso meu ele massageava para aliviar
um pouco da dor. Havia momentos em que não conseguia ficar deitada. Chorava
de dor e dizia que não agüentava mais, queria mesmo desistir. O
Edgar procurava me acalmar andando comigo pelo corredor e me colocando no chuveiro.
Somente no fim da madrugada consegui cochilar. Acordei por volta das cinco e meia
com a visita da médica, que entrou no quarto para fazer um exame de toque.
Após examinar disse que o colo estava bem fininho, mas sem nenhuma dilatação.
Depois de tanta dor não havia dilatado nada, isso me desesperou. Às
sete e meia da manhã, a médica que acabara de assumir o plantão
examinou novamente. Desta vez, no momento do toque houve uma dilatação
de quatro para cinco centímetros. Ela passaria a induzir com ocitocina
e quando chegasse a sete ou oito de dilatação aplicaria a anestesia.
As dores estavam muito intensas. Eu estava cansada e fraca, desde o dia anterior
não me alimentava direito e nem água parava no meu estômago.
Além disso, estava apavorada com a possibilidade de não agüentar
o tranco no expulsivo. Assim, mesmo com a dilatação, quando
a auxiliar de enfermagem apareceu para aplicar a ocitocina, insisti que queria
a cesárea. Pouco tempo depois, apareceu uma enfermeira com vários
papéis para eu assinar, inclusive um termo de ciência sobre os riscos
da cirurgia. Em seguida, surgiu uma outra médica, cesarista convicta, já
"com a faca na mão", segundo o Edgar. Isso me balançou,
disse que estava na dúvida. Criou-se um impasse. De um lado a médica
do plantão que me incentivava a continuar com o trabalho, do outro, a cesarista
louca para me levar. Resolvemos que eu ficaria com a ocitocina até às
11 da manhã, quando seria feito um novo exame de toque e, finalmente, eu
deveria me decidir. As dores aumentavam, mas decidi que venceria o meu medo
e iria até o final, afinal, desde o início lutamos pelo parto normal.
Me veio uma força não sei de onde. Fiquei sobre a bola no chuveiro
com o Edgar me massageando. Pedi para ele ligar para a M. a fim de sabermos se
o prazo dado, 11 horas, seria suficiente para a ocitocina fazer efeito. Por coincidência
ou sei lá o que, a M. ligou para o Edgar neste mesmo instante, mas para
saber como estava a Maya, que ela pensava ter nascido na cesariana que eu havia
pedido na noite anterior. A M. vibrou ao saber que eu estava em trabalho de parto,
orientou-nos a solicitar que o prazo fosse esticado até o final do plantão
e disse que ela e a A.C. estavam se dirigindo pra lá. Às 11 horas,
com as duas médicas a minha frente, informei a minha decisão. A
cesarista saiu decepcionada. A médica autorizou a entrada da A.C.
e foi essencial a sua presença. Ela me acalmou, me ajudou muito no pior
da dor, ficou comigo no chuveiro e me ensinou a respirar nas contrações.
O Edgar saiu para comer alguma coisa, já que ele também estava com
a barriga vazia. A M. chegou com sorvete de limão para mim, mas não
pôde ficar muito tempo comigo porque a médica autorizou a permanência
de apenas uma das duas. Nesse meio tempo, a minha mãe telefonou
para o Edgar para sugerir que ele pedisse a cesárea, mesmo sabendo que
eu já estava com 6 cm de dilatação. Ele ficou indignado,
mas me contou do telefonema somente depois que a Maya nasceu. A essa altura o
quarto já estava preparado para o nascimento. Recebi uma dosagem
de Buscopan com Plasil e consegui descansar um pouco, apesar das contrações.
A A.C. orientou o Edgar sobre como ele deveria fazer as massagens e saiu para
almoçar com a família. Ela voltaria mais tarde. Por volta das duas
e meia da tarde, a médica realizou outro toque. Com 7 cm de dilatação,
ela resolveu romper a bolsa. Quando rompeu não senti escorrer líquido
como se estivesse urinando. Saiu uma pasta bastante escura. As médicas
nos informaram que o parto não poderia mais ser normal porque havia excesso
de mecônio e quase nenhum líquido. Explicaram que o mecônio
poderia grudar no pulmões da Maya, gerar uma pneumonia, subir para o cérebro
e etc. Imediatamente as auxiliares começaram a desmontar o quarto. Ficamos
atônitos, o retrato da frustração. Quando ficamos a sós
o Edgar ligou para a M. e a A.C.. Não havia muito que fazer. Enquanto ele
falava ao telefone, uma auxiliar me levou do quarto em uma cadeira de rodas. Nessa
hora o Edgar não agüentou e chorou. Vê-lo assim me deu o maior
nó na garganta, mas precisava ser forte. Estava com muito medo, embora
a vontade de ver a Maya fosse maior. Eu me perguntava "por quê???".
Estávamos tão perto e, de repente, tudo mudou. As dores continuavam.
Felicidade e tristeza, superação e frustação, tudo
se misturava em mim. Eu me fortalecia em saber que tentara de tudo e que não
arriscaria a vida da Maya. Pensava que as coisas não acontecem por acaso,
tinha que acontecer daquela maneira. Colocaram-me na mesa de operação,
estava com quase 8 cm de dilatação. Depois de alguma espera fui
anestesiada. O circo estava montado. O Edgar apareceu todo paramentado e já
bem humorado. Sentou do meu lado para me dar toda a força que ele tinha.
Eu não podia ver nada, só escutava e olhava para o Edgar. Até
que ele me falou: "é ela!" e soltou uma lágrima. Levaram-na
para uma sala ao lado e chamaram o Edgar. Consegui escutar que, mesmo com a cesárea,
a Maya aspirara um pouco de mecônio e que se o organismo dela não
reagisse havia a possibilidade de ela ser internada na UTI, o que não foi
necessário. O Edgar voltou e me disse que ela era linda, tinha as minhas
bochechas e o nariz dele. Depois de tudo que passamos eu acredito que nada
acontece por acaso. A Maya veio para me ajudar a perceber que posso suportar muito
mais do que imaginava. Ela me ensinou muitas coisas nesses dias. Que devemos ir
até o final, mesmo que o final não seja como planejamos, que a vida
é assim. Que eu e o pai dela temos um amor muito grande. O pai dela
que, por sinal, também sofreu todas as dores do parto, que aprendeu e viveu
cada momento da sua chegada ao mundo, que não arredou o pé. Ela
nos mostrou que às vezes os anjos aparecem em nossas vidas através
das pessoas generosas e amigas como a M. e a A.C., que nos ampararam e nos deram
toda força nos momentos mais críticos. E que depois de tudo isso
nós renascemos para uma vida a três e, quem sabe a quatro daqui uns
anos, afinal, como a M. mesmo disse, a Maya preparou o caminho para que o próximo
venha de parto normal. Palavras para dizer ao meu amor o quanto foi e é
importante tê-lo ao meu lado sempre não sei. Só sei que sou
uma privilegiada por ter uma pessoa tão sensível e dedicada, além
de todas as outras mil qualidades que ele tem. Agradecer o carinho e a dedicação
da M. e da A.C. seria muito pouco. Elas foram o nosso porto seguro, as pessoas
a quem entregamos toda a confiança. Agradeço a Maya e espero
que possamos estar sempre crescendo e aprendendo juntos nesta caminhada que iniciamos. Voltar
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