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Sábado, 11 de novembro de 2006 Como ser mãe
de segunda viagem e mesmo assim não perceber o trabalho de parto iniciando.
Coisas que a vida te apronta. Acordei muito mal humorada. Deveras mal
humorada. O dia nublado me irritava, os sons da vizinhança me irritavam,
as ações e não ações do Flávio e do
Gabriel me irritavam. Tudo parecia insuportável e aborrecido. Recordo
de ter respondido secamente ao meu marido por qualquer coisa que ele gentilmente
me ofereceu e ter perdido totalmente a paciência com meu filho, mas o motivo
ficou no caminho, esqueci. Levantei da mesa chorando, voltei para a cama e
eles procuravam me consolar. Fiquei compadecida e ensaiei um sorriso, mas pedi
para ficar sozinha e dormi. Horas depois, acordei mais calma, porém,
logo voltei a chorar por nada. Estava muito cansada daquele final de gestação
cheio de dores que iam e vinham (mas nunca vinham de uma vez), do refluxo, da
azia, das mesmas roupas e das limitações que cresceram com o tempo. Mais
duas horas de sono e me senti razoável. Decidi passear, juntei meus rapazes
e fomos ao Shopping perto de casa. Gabriel Henrique queria ir a pé e segui
um trecho do caminho com ele, apesar de estar cheia de contrações
incômodas. Depois Flávio nos encontrou de carro, trocou comigo e
segui dirigindo ao Shopping e respirando aliviada pelos minutos de paz solitária. Levei
um espelho para emoldurar (era para ver o Felipe nascer!) e logo mais quando os
meninos chegaram, fizemos mais algumas comprinhas em meio a contrações
que me davam vontade de acocorar e ficar. Mas não eram dolorosas, então
concluí que eram pródromos. Vinham em intervalos até que
regulares, no entanto como não vinham com dores, achei que eram apenas
as Braxton Hicks, pois achava que as contrações de parto viriam
com dores da barriga para costas e vice-versa... Por volta das 19:30h o Gab
apresentou temperatura alta, ficou manhoso e sonolento, então decidi ir
para casa. Naquele momento suspeitei que o Felipe estava para nascer, embora minha
DPP fosse só para 24 de novembro. Já em casa, constatei a febre
do Gabriel, mediquei meu filhote e percebi que as contrações sumiram.
"Bom, mais um dia de pródromos", pensei. Ledo engano. Em
algum momento ao longo deste estranho dia, lembro de ter conversado com o Felipe
e dito que se estivesse pronto, se nada estivesse faltando terminar, que nascesse
"pelo amor de Deus", pois mamãe estava exausta! Deitamos por
volta da meia noite, o cansaço dera lugar ao sono. Domingo,
12 de novembro de 2006 Como frustrar o plano de parto de sua mãe,
deixando de lado toda a poética, as flores, as fotos, a música e
mesmo assim ser o bebê mais forte e amado da noite. A chegada do decidido
e corajoso Caçador das estrelas. Um grito forte. Uma dor forte.
Foi assim que acordei às 2:30h da madrugada daquele domingo.
Flávio
acendeu a luz, assustado. "Senti uma dor ferrada!" - disse eu, já
constatando que o bebê estava vindo. Levantei-me depressa e corri para o
banheiro, senti uma forte vontade de urinar, evacuar e de correr pra bem longe.
Acho que estava assustada. Um líquido claro e rosado manchou minha roupa,
descobri então que a bolsa se rompera, mais um sinal de que agora era pra
valer. Um turbilhão de emoções começou a aflorar.
Ainda
contava ao Flávio minha descoberta sobre a bolsa, quando outra contração
muito forte me fez acocorar e gritar de dor. Atrapalhado com os fatos, ele tentava
me auxiliar, sem saber ao certo como. Pedi uma toalha pequena para morder quando
a dor viesse, pois não queria assustar o Gabriel com aquele berreiro.
Acocorada
no box, pedi que ligasse o chuveiro, mas não consegui permanecer lá
mais que um minuto, pois com o espaço pequeno não via posição
confortável. Agarrei-me nos ombros do Flávio e urrava de dor mais
ainda (se não me engano cheguei a mordê-lo, tadinho!). Disse palavrões
que eu nem sabia que conhecia! Não esperava uma coisa tão "punk",
havia me preparado para uma evolução lenta e gradual, não
para uma dor daquelas e ainda por cima sem trégua. Vinham em intervalos
curtíssimos, mal dava para eu respirar entre elas. Pedi para ir para o
quarto e ao mesmo tempo berrava para que ele não me soltasse, nem me deixasse
ali sozinha. Que confusão!
Acho que foi nesta hora que pedi pela
minha doula, minha tão esperada doula. Estava certa de que ela poderia
me ajudar a melhorar a situação. Minutos antes, implorei por anestesia,
hospital, cesariana (que maluca!) e tudo o que me pareceu colocar fim na danada
da dor, pois achei que morreria se tivesse que passar horas sentindo aquilo.
Passados
alguns dias deste fato, eu saberia que na verdade estava já na transição.
O Trabalho de Parto começara muito tempo antes, quase indolor e eu não
consegui identificá-lo. Creio que estive dilatando por muitas horas, mas
não sabia disso. Pedir pelas interferências era um sinal visível
de que eu estava na parte mais avançada das dores, mal sabia eu que mais
rápido do que imaginava, Felipe estaria nos meus braços, fitando
meus olhos e eu pra sempre nas mãos dele!
No quarto, Flávio
se afastou para vestir-se, ligar para a doula, avisar a portaria e deixar a porta
de entrada destrancada. Foram os minutos mais longos de minha vida, me sentia
confusa, cansada e partindo ao meio. Pensava: "Só uma doida para ter
bebê em casa!" Lembro poucos detalhes desta fase, minha consciência
estava totalmente interiorizada, o mundo externo estava lá, mas eu não
conseguia entrar em contato com ele direito. Estava embriagada de parto.
Lembrei:
"Isso é que deve ser a Partolândia". Aqui cabe um aparte,
pois o que senti, torna-se muito importante de ser relatado, para que a transformação
que fui sofrendo com os fatos seja bem entendida.
Noites antes, sonhei
com freqüência com a presença de uma parteira que me parecia
asteca ou inca. Uma senhora de certa idade, baixa, cabelos escuros e presos num
coque, roupas negras com uma faixa colorida ou talvez fosse uma capa, não
sei ao certo. Podia ser uma avó "bicho-grilo", mas eu sabia que
era uma parteira. Ela sempre me fitava de longe, não sorria, mas me fazia
sentir que estava acolhida e compreendida. Sua serenidade trazia segurança
e confiança. Foi depois dela surgir, que passei a sentir uma força
muito grande e muita confiança para parir. Todas as mulheres do mundo estavam
comigo e eu podia dar conta, eu conseguiria. E lá, no auge da transição,
estava novamente a parteira, me fitando compreensiva e fazendo e desfazendo um
trançado na franja da faixa de sua cintura. Senti nitidamente sua confortadora
presença. Mentalmente eu implorava ajuda à Grande Mãe,
a Allamirah, a todas as mães existentes, pois fisicamente só urrava
e me contorcia com as dores. Fechava os olhos e lá estava a velha senhora,
me olhando. Percebia comigo minhas amigas Ana Ceretti, Cecília, minha mãe,
minha sogra, mulheres antigas e novas, figuras imaginárias e reais. Creio
que essas imagens me ocorriam porque de uma forma ou outra, todas estavam ligadas
ao papel de mãe na minha vida. Ouvi a doula entrar e sua voz doce,
calma e segura foi um bálsamo. Não recordo o que eu disse, mas lembro
e me emociono quando a voz dela chega a meus ouvidos:
"Marcinha,
você está ótima, está indo bem querida, vai conseguir..."
"Já,
já seu bebezinho vai nascer, estou vendo o cabelinho dele..."
A
posição de quatro na cama foi tudo o que consegui fazer. Logo eu
que pensei que andaria, dançaria, ficaria de cócoras. A dor era
tão atrevida, que me roubava as forças para mudar a posição,
descer da cama ou coisa que o valha. A tão sonhada banheira para parir
na água nem conseguiu ser cheia, não deixei a Ana e o Flávio
se afastarem para nada.
Ao mergulhar na dor, saia do espaço e do
tempo. Minha percepção ficava difusa e tudo o que eu assimilava
era o meu corpo trabalhando e o meu bebê trabalhando dentro dele. Dizia
a mim mesma que enfrentasse tudo, pois ia passar e no final ganharia um prêmio
chamado Felipe. Imaginava a força dele de dentro para fora do meu corpo
durante as contrações. Éramos parceiros nesta empreitada
e o esforço mútuo é que fazia a mágica dar certo. Quanto
mais me entregava à dor, mais feliz ficava por estar conseguindo parir
meu bebê. Eu estava fazendo o meu parto, eu mesma. Parte de mim chorou contido
por esta alegria.
Juntas, eu e a dor das contrações, formávamos
uma só força. Por pior que fosse, eu sabia que precisava muito delas.
Minha mente estava dividida em muitas "Márcias". Uma urrava sobre
a cama, outra pensava no Gabriel no quarto em frente e temia que acordasse e ficasse
assustado. Uma terceira assistia tudo de fora e sabia que nunca mais seria a mesma.
Sentia-me infinita.
Não sei quanto tempo se passou, eu já
nem prestava atenção ao que estava em volta. Ouvia trechos da fala
da doula e do Flávio, arranhei e mordi seu braço e seu ombro e em
algum momento muito difícil cheguei a ouvir o tecido da roupa dele rasgar
mediante minhas mãos que o agarravam. Finalmente ouvi alguém
dizer, deve ter sido a doula, "Dilatação total!" Sorri,
em todas as minhas versões. Eu consegui, agora era só expulsar!
Por muitas vezes duvidei que chegaria até aqui.
Não lembro
como, mas mudei de posição, fiquei de costas para o Flávio,
apoiada nele (ou sei lá em que) recolhi as pernas até os ombros
e agora podia fazer força. Era o momento esperado: eu ia ajudar o meu bebê
a nascer.
A dor pareceu muito menor agora, mais tolerável, menos
crua. Segui cada orientação de minha querida doula e alguns
minutos depois eu podia sentir o bebê no canal de parto, sentia uma interação
enorme com ele.
O cansaço, o suor, o receio de acordar o Gabriel
Henrique me atrapalhavam, mas fui em frente. Respira, faz força, acho que
eu já nem gritava mais. Um anel de fogo se fez, senti queimar e soube que
a cabecinha dele estava coroando. Não consegui tocar sua cabecinha, pois
não podia perder a concentração, temia que tudo parasse e
eu não tivesse mais energia.
Uma emoção profunda
me inundou e mais do que nunca eu precisava conseguir. Sentia fraqueza, exaustão.
Tudo estava acontecendo tão depressa e de forma tão incontrolável
que eu não acompanhava. Quis muito minha mãe nesta hora,
mas ela não estava, pois teve medo de acompanhar o parto e eu respeitei
isso. Mas como a gente sente necessidade de mãe quando a coisa dói
pra valer. Minha sogra estava a caminho e eu queria muito que chegasse logo e
ficasse com meu filho. Apesar de tudo, ainda estava preocupada com o Gabriel no
quarto em frente. Fazia força e empurrava pra valer. Senti o rostinho dele
dentro de mim - nariz, queixinho -maravilhoso!
Neste meio tempo haviam
chegado o Dr. J e a Dra. M, porém, só neste momento eu percebi a
presença deles no quarto. Quando surgiu a cabecinha, queria abrir meus
olhos, mas não conseguia. Mais uma ou duas forças e os ombros passaram.
Lembro apenas de abrir levemente os olhos e pedir que o puxassem dali, eu não
tinha mais força.
Passou seu corpinho, senti seus pés
e abri os olhos em tempo de ver o Dr. JK a segurá-lo para em seguida oferecê-lo
ao meu colo. Acolhi meu pequeno de olhos bem abertos e perguntei as horas. 04:30h,
exatamente duas horas após o grito de partida. Estava terminada a dor,
começava uma imensa felicidade.
Pedi que chamassem o Gabriel
Henrique no quarto em frente. Dr. J. tentou, mas ele estranhou. Com a ajuda do
Flávio ele veio ressabiado, subiu na cama e me disse "Ah, mãe!
Eu amo muito você e o meu irmãozinho Felipe!" - essa frase me
derreteu. Muitas coisas aconteceram então, mas minha memória
delas é confusa. Sei que liguei para minha mãe, chegaram minha sogra
e sogro e o Gabriel pegou o irmão no colo pela primeira vez. Saiu placenta,
senti muito frio, dei o peito ao meu bebezinho... A certa altura, a doula me
deu o cordão umbilical, que senti ainda pulsante entre os dedos. Delicioso! Mais
um tempo passou e Jorge perguntou ao Flávio se gostaria de cortar o cordão.
Se não me engano, ele disse algo mais ou menos assim: "Depois de passar
por tudo isso, cortar o cordão é fácil! Manda aí!"
- e corajosamente empunhou a tesoura e cortou!
Gabriel Henrique assistiu
tudo acolhido no colo da vovó Assumpta. Entre assustado com aquela movimentação
de gente diferente em casa e feliz com a chegada do Felipe, não perdia
um acontecimento. Tirou fotos do irmão e posou para outras tantas. Fez
carinho na mamãe e ganhou os presentes que o Felipe "trouxe"
lá de onde veio. Enfim, tudo junto e cercado de alegria, afinal era nosso
dia de Natal familiar.
Olhando meu filho, decidi que seu segundo nome
seria Órion. Um bebê tão doce que atendeu ao pedido da mamãe,
tão determinado que enfrentou um Trabalho de Parto relâmpago de duas
horas ativas, merecia ser homenageado com o nome da Constelação
mais bela do céu. O Gigante Caçador Órion, consagrado no
céu por Diana, segundo a mitologia Grega.
Nua sobre a cama, coberta
pelo sagrado ato de parir, eu agora era outra mulher, outra pessoa, outro ser
humano. Uma ferida estava curada, uma alma crescera, um espírito brilhou.
A isso devem chamar êxtase.
Uma mísera laceração
interna foi tudo o que tive. Sem pontos, sem cortes, sem intervenções
medicamentosas. Mais uma mulher que ganhou de volta o direito e a autonomia de
parir seus filhos, em casa, com seus familiares em volta e através de sua
própria força e instinto.
Horas após o parto, sentada
na sala curtia a presença da equipe, dos familiares e do meu novo bebê.
Dra. AP veio naquela tarde, examinou nosso pimpolho com muito carinho e como era
esperado, disse que ele estava ótimo. Pena que ela perdeu sua chegada,
pois o Felipe não quis saber de esperá-la. Dr. JK, Dra. M,
minha doula e Dra. AP respeitaram tudo o que coloquei no meu Plano de Parto. Foram
amáveis, doces, silenciosos e francos. Quem esqueceu o Plano foi o Felipe,
que veio apressado, dispensou minhas flores, minhas músicas, a filmagem,
as fotos e até a comilança da mamãe.
Agora somos
quatro.
Quatro pessoas fortes e corajosas, quatro responsáveis
por mais uma mágica da vida. Quatro amores que escolheram partilhar o mesmo
teto na caminhada evolutiva. Sou muito grata, a todos e cada um. Obrigada Felipe
Órion, por me permitir essa experiência maravilhosa.
Sejam
todos felizes, eu sempre vou me importar.
Beijo no coração Márcia Voltar
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