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A chegada da Maria Clara
Em São Paulo, 19/03/2008
por Fernanda
Sou filha única, nasci por "acidente" quando minha
mãe já tinha 42 anos. Nasci de parto normal. As referências
que tive desse parto sempre foram muito positivas, apesar de minha
mãe ter parido sozinha em um hospital estranho, com várias
intervenções (ocitocina sintética, episiotomia...)
Mas a mensagem que ficou foi de um momento único, uma realização
enorme, o poder de colocar uma vida no mundo... Cresci ouvindo a
estória deste parto e, para mim, o parto normal sempre foi
a regra, a cesariana era a exceção. Ledo engano.
Minha filha mais velha, hoje com 8 anos, nasceu em Vitória.
Eu acreditava que o ginecologista da época fosse totalmente
pró parto normal, mas, no final, acabei sendo conduzida para
uma cesariana eletiva. É uma longa estória... Minha
segunda filha, 4 anos, nasceu em São Paulo e acabei caindo
novamente na mesma conversa - foi uma cesárea absurda e francamente
desnecessária, no início do trabalho de parto, nem
desculpas foram arranjadas...
Na terceira gravidez, iniciei o pré-natal com o mesmo ginecologista
que me atendeu na época da Gabi. Eu acreditava que estava
tudo bem, que já tinha esquecido aquela vontade de parto
normal, que talvez o melhor mesmo fosse a cesariana, afinal era
um verdadeiro consenso hoje em dia. A gravidez também foi
muito tranqüila, ia às consultas mensais, fazia os exames.
Ele logo me alertou que o parto normal era impossível após
duas cesáreas, que havia grande risco de ruptura do útero,
que eu não poderia sequer entrar em trabalho de parto. E
eu achando que tudo bem... Até que, por volta do sexto mês,
comecei a ficar ansiosa com o parto - perdia o sono, tinha sonhos
estranhos, enfim, comecei a reviver as duas experiências anteriores.
E percebi que não estava nada bem, uma grande inquietação
tomava conta de mim! Resolvi me informar melhor a respeito, pesquisei
na Internet sobre parto normal após cesárea e logo
achei o site do GAMA, o Amigas do Parto, a AC e tudo o mais. Principalmente,
achei os relatos de parto, que fizeram toda a diferença -
finalmente encontrava pessoas que pensavam como eu. Eu não
era tão maluca assim por acreditar que o parto é um
processo natural e fisiológico, que o corpo feminino funciona!
Era quase véspera de Natal e resolvi ouvir uma segunda opinião
sobre o parto. Felizmente, marquei consulta com o Dr. JK. O destino
fez com que eu encontrasse as pessoas certas no momento certo! Insisti
com meu marido para que me acompanhasse (ele não costumava
ir às consultas), e conversamos longamente com o Dr. JK,
que falou do risco de 0,5% de ruptura do útero, de outros
casos bem sucedidos, de evidências científicas, do
parto natural. O parto era meu e não do médico! Lemos
muito material indicado por ele e decidimos que 0,5% era um risco
com o qual poderíamos conviver. Eu tinha achado o caminho
e estava muito feliz!
Tomamos algumas precauções - levantamos os prontuários
médicos das duas cesáreas prévias, para verificar
o tipo de incisão no meu útero. Discutimos todos os
exames e indicações das duas gestações
anteriores e pude perceber que nunca houve indicação
verdadeira para cesariana. Enfrentar essa verdade é dolorido...
Logo comecei a Yoga com a querida CB e voltei-me totalmente para
a gestação e o bebê. Mentalizava positivamente
o momento do parto, acreditava que tudo estava conspirando a meu
favor e nada daria errado.
Entrei em trabalho de parto na terça-feira, com 40 semanas
e 5 dias, às 2h30min da manhã, após aproximadamente
36 horas de bolsa rota. Acordei sentindo uma daquelas contrações
bem fortes. Fiquei feliz porque minha filha estava chegando! Ainda
consegui cochilar entre as contrações até as
6h30min. Durante todo o dia 18/03 a freqüência das contrações
permaneceu de 10 em 10 minutos - quando a dor vinha, ficava de cócoras
pela casa; quando passava, vida normal. Avisei Dr. JK e AC, que
passou em casa logo após o almoço, ouviu os batimentos
do bebê (tudo ótimo!) e me encorajou mais um pouco.
À tarde, tentei cochilar novamente, mas já não
conseguia. Ficar deitada era insuportável para mim - passei
o dia inteiro andando pela casa, agachando durante as contrações,
ouvindo música e curtindo aquele momento. Meu marido ficou
por perto, de tempos em tempos resolvia cronometrar as contrações:
no final da tarde percebemos que o intervalo estava diminuindo,
e a dor também era mais intensa.
AC chegou por volta de 19h30 e resolvemos ir para o hospital antes
que as dores ficassem mais fortes. Um dos meus receios era a internação,
exatamente pela experiência ruim que tive no segundo parto.
Nesse aspecto, a presença da doula foi muito importante,
já que meu marido levou algum tempo para colocar o carro
no estacionamento, providenciar a internação e todas
essas coisas, e AC ficou comigo todo o tempo. Assim que saltei do
carro, na porta da maternidade, veio uma contração
forte e me agachei ali mesmo - o manobrista me olhou com cara de
espanto e logo sugeriu uma cadeira de rodas, ao que ela respondeu
- "já vai passar, ela vai andando mesmo". E assim
fomos. Acho que ainda me agachei pelos corredores do hospital e
na sala de espera - foi engraçado porque eu parecia um ET
ali, tendo as minhas contrações... Fizeram um toque
(o único durante todo o trabalho de parto) e constataram
5 cm de dilatação! Que bom, meio caminho andado!
Já na LDR, fui direto para a banheira, mas não gostei.
Tive necessidade de me movimentar durante todo o trabalho de parto
e me senti presa na banheira. Logo quis sair. Continuei me agachando,
apoiada no meu marido. Também usei a bola, com AC e Dra.
C me massageando com aquele maravilhoso óleo de arnica. Elas
me davam água aos golinhos, tive muita sede, até chupei
um picolé de uva!
A coisa começou a apertar, e fui para o chuveiro. Com as
luzes apagadas, fiquei agachada, apoiada em uma cadeira, enquanto
a água morna caía nas minhas costas. A partir daí,
tudo fica embaralhado - acho que foi a transição!
Lembro do meu marido em volta, preocupado que eu escorregasse no
box. Não sei se falei ou somente mentalizei várias
coisas: chamei Nossa Senhora, rezei, pensei nas minhas avós,
que tiveram seus filhos em casa e criaram grandes famílias,
senti fortemente a presença da minha tia mais querida que
já se foi... Acho que comecei a gemer (ou a gritar??) mais
alto, a reclamar com meu marido (que inclusive tomou uns tapas na
mão, quando tentava fazer carinho na barriga bem na hora
da contração!!), a falar que doía muito. Voltei
a sentar no banquinho e, de repente, era como se tivesse acordado
de um sonho. Olhei para o teto da sala e percebi as
luzinhas acesas, consegui enxergar cada um que estava ali dentro,
falei "Acordei!". O Zé perguntou - e a partolândia?
Alguém respondeu - ela acabou de sair de lá!
Ainda no chuveiro, senti uma contração que, no final,
vinha com uma vontade de fazer força. Acho que foi o primeiro
"puxo" do expulsivo. Mas que expulsivo demorado! Eu imaginava
que seria mais rápido - estava tão cansada! Entre
uma contração e outra, pedia para dormir, dizia que
estava cansada. As contrações espaçaram um
pouco mais, e no final sempre vinha o "puxo". Estava tensa.
Lembro que alguém disse que eu precisava me entregar mais,
parar de brigar com a dor. Estava realmente cansada e quis deitar
pela primeira vez - fiquei naquela posição de lado
na cama, já sentindo bem os "puxos". Por fim voltei
a caminhar e, numa contração mais forte, quando me
agachei apoiada no meu marido, senti que o bebê estava no
meio das minhas pernas. Gritei "Socorro! Vai me partir no meio!"
Alguém me tranqüilizou dizendo que era assim mesmo!
Comecei a chamar pela minha filha, e gritei bastante!! Foi o único
momento em que senti medo, aliás, pânico mesmo. O períneo
era o meu grande pesadelo para o parto - sabia que era rígido,
nas últimas semanas tinha tentado a massagem com óleo,
mas não consegui tamanho o desconforto que sentia.
Parece que logo estavam todos ali - eu sentada no banquinho, com
o Zé me apoiando as costas e toda a equipe na minha frente.
Reclamava de cansaço, pedia para acabar logo. De repente
recobrei as forças e disse - ou pensei - "se cheguei
até aqui vou até o final". Notei uma enfermeira
do hospital estendendo uns lençóis azuis no chão,
e pensei - agora nasce! É mesmo um "gran finale".
Puro instinto, entrega total à força da natureza.
Não há como resistir - é impossível
não fazer força, o bebê nasce queira você
ou não, é ímpeto total. Coloquei a mão
na cabecinha logo que saiu, e tomei um susto enorme - era verdade,
o bebê estava saindo de mim! Estávamos nos despedindo
depois de nove meses de simbiose total e, ao mesmo tempo, iniciando
uma vida nova! A Dra. C colocava umas compressas no meu períneo
e, num dos "puxos" mais fortes, Dr. JK pediu que segurasse
a força, fiz aquela respiração curtinha, alguém
falava que a cabeça tinha saído até a boca.
Na contração seguinte, o corpinho saiu inteiro e ela
logo veio para o meu colo, toda sujinha de vernix. E, surpresa:
a dor tinha acabado!! Eu estava me sentindo ótima, cansada,
mas feliz, poderosa, renovada... É um momento de grande magia.
E havia um cheiro doce no ar... cheiro de parto como disseram, cheiro
de felicidade...
Tive todo o apoio do meu marido em minhas escolhas, além
de estar com uma equipe maravilhosa, humana, competente, cujo maestro
foi o Dr. J.K. Agradeço a todos do fundo do coração
- Dr. JK por ter acreditado em mim desde a primeira consulta, pelas
palavras sempre doces de incentivo e confiança, querida AC
(não sei o que seria de mim
sem ela), pelas massagens e todo o carinho, Dra. C que esteve do
meu lado o tempo inteiro e, no final, pegou a Maria Clara... Dr.
D por ter recebido a Maria Clara com tanta delicadeza, Dra. A que
ouviu minhas reclamações na hora da dequitação
da placenta...
Obrigada Zé, grande amor e companheiro da minha vida, por
ter acreditado em mim, apesar de toda a tremedeira no final...
Vou guardar esses preciosos momentos até o final da minha
vida!
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