|
Relato do parto da Liz
23 de abril de 2008, Hospital NSL
3,8 kg
52 cm
por Camila
Ming Yuang era o nome que a chamávamos antes do parto, por
não saber seu sexo...inventamos em uma brincadeira bem antes
de ficarmos grávidos). Ela estava prevista para nascer lá
pelo dia 10 de abril... Já estávamos aos 20 e pouco
e nada. Normal. Podemos esperar mais duas semanas depois da data
prevista. Eu me sentia um pouco cansada da gravidez, do peso da
barriga especialmente, mas, não queria que aquele momento
acabasse, não estava ansiosa. Passei os 9 meses me preparando
para muitas coisas, mas, principalmente, para vencer um medo que
até hoje não descobri direito de que era....(acho
que é algo para pensar o resto da vida).
No fim de semana anterior ao nascimento de Ming Yuang, eu e o Cris
nos concentramos em preparar-nos definitivamente para sua chegada.
Arrumamos o bercinho, a mala para levar na maternidade etc. Falamos
muito também com o bebê, convidando-o a sair lá
do quentinho. Saimos a caminhar no parque Villa Lobos e até
em um Shopping. Foi um dia inteiro andando para ver se algo acontecia.
Afinal, já estávamos na semana 42.
As contrações ainda eram leves, como início
de cólicas menstruais... Desde a semana 40, a cada mudança
de lua, eu sentia que poderia ser a hora, como se a natureza estivesse
agindo e, talvez, de alguma forma, meu "medo" impedindo...
Neste dia, a Dra A (nossa obstetra) ligou sugerindo que usássemos
uma fitinha que libera um tal hormônio "progesterona",
que estimula o útero a começar com as contrações.
Já estávamos monitorando a cada dois dias com cardiotocos
e ultrasonografias. Tudo estava perfeitamente normal, mas nada...
resolvemos aceitar a sugestão da Dra.
O Cris foi trabalhar, eu fui almoçar na casa da Cleide,
mãe da Tati (duas grandes amigas ).Queria estar com pessoas
queridas e comer algo gostosinho e saudável. Comecei com
uma homeopatia também neste dia.
Lá pelas 18h saímos de casa, pegamos um trânsito
enorrrrrrrme para chegar ao hospital.Até paramos em uma padaria
e tomamos um mega lanche...Meu pai estava no hospital nos esperando.
Fizemos a internação. Fomos para o quarto. Umas 22hs
uma enfermeira veio com a fitinha. 3 horas depois as contrações
já estavam frequentes e intensas. A dor de uma contração
é como uma cólica forte, aliada a uma dor nas costas
(na regiao da lombar, nos rins). Cada vez ela vinha mais forte e
de menos em menos tempo. Fui para o chuveiro. Sabia que agora sim
estava começando. Me sentia preparada, protegida, amparada...
Ligamos para a doula, que chegou em 1h
Um desconfortável exame de toque me "estuprou"
e nos deu a informação de que minha dilatação
estava em quase 5 cm. Nossa! Eu estava mesmo em trabalho de parto....
Quando a doula chegou, trouxe com ela uma das minhas principais
aliadas daquela noite: uma bola!
Sentei na bola e recebi massagens. Fui com a bola pro chuveiro
e causei o primeiro alagamento no hospital. A bola tampava o ralo
do banheiro, mas eu me sentia tão bem lá que queria
mais é que tudo se alagasse mesmo!!!!
Descemos então para o centro obstétrico. Minha dilatação
estava em 5 ou 6 cm. A enfermeira queria de todos os jeitos que
eu descesse de cadeira de rodas. Mas, ignorei e entrei de pé
no elevador. Quando as contrações vinham eu parava,
respirava e esperava passar. Já estava doendo MESMO!
Chegando lá em baixo, vi que era um quarto exatamente igual
ao de cima, apenas um pouco maior, eu acho. Me enfiei no chuveiro
enquanto o Cris e a doula resolviam como e onde montar a banheira.
O Cris teimou que queria a enfiar no banheiro, não a encheu
completamente, fez tudo do jeito que achou melhor, mas, no fim,
aquela banheira murcha naquele banheiro apertado cujo chuveiro só
jorrava água pelando, foi o último lugar que quis
ficar. Me sentia com claustrofobia. Lugar pequeno e quente.... (a
idéia de parto na água tinha dançado!!) Eu
precisava de companhia e de um espaço amplo e muito ventilado.Muito
calor e sede!!! Lembro-me que adorava beber e jogar água
gelada na minha cara.
Aguentar as dores exigia concentração e determinação
absurdas. Eu tendia a me contrair durante elas e isto as tornavam
piores. Não conseguia olhar ninguém nos olhos, a não
ser o Cris que fazia de tudo para me convencer que quanto mais eu
relaxasse, mais fácil seria. Realmente quando eu relaxava
durante uma contração, ela passava bem mais rápida
e era mais leve. Mas não é tão simples assim,
chega uma hora em que você já está totalmente
desesperada e cansada.
Foi importantíssimo esse momento com o Cris. Ele acabou
sendo meu principal parteiro. Também foi importante ter quem
segurar a mão. Precisava segurar a mão de alguém
o tempo todo. Senti vontade de morder, apertar, gritar,.... sentia
que a hora estava chegando. Me sentia exausta e aterrorizada.
Eu estava com raiva das outras pessoas. Fiquei incomodada com a
Dra A falando no celular. Me incomodei também com todo mundo
que ficava me elogiando e incentivando...não achava que estava
indo bem... estava doendo para caramba... e meu medo só se
intensificando!
Nesse ponto eu já estava tão desesperada que comecei
a pedir por anestesia. Disse firmemente que não aguentava
mais e que precisava de ajuda. Alguém falou em buscopan na
veia... eu toparia receber qualquer ajuda.
Todas saíram da sala. Ficamos eu e o Cris. A bolsa estourou
pouco antes disso. Líquido clarinho.... sensação
gostosa, como se tivesse mesmo uma bexiga cheia dentro de mim, que
estourou na hora em que eu sentei na cama.
Depois de um tempo as meninas (a Dra A , a doula e a M) voltaram.
Apareceram com uma homeopatia. A Dra A me pediu para examinar....
subi na cama... a dilatação estava quase completa,
mas depois soube que o bebê estava bem alto ainda.
Comecei a sentir vontade de empurrar. Que medo tão grande
sentia. Neste momento, era uma mistura de cansaço, medo,
força, de tudo... Queria ficar de pé, mas não
tinha força na perna.
Me pendurei no pescoço do Cris, agarrei a mão da
doula e da M Sentia uma ardência grande na vagina. Queimava
o anel de fogo. Eu estava meio de cócoras na cadeirinha,
meio em diagonal (pois era baixa pra mim) O bebê desceu rapidamente
e agora não tinha como parar, ela queria muito nascer e tenho
certeza que me ajudou muito. Fazia força entre as contrações.
Seguia as intruções que ouvia. Vi pelo espelhinho
(depois de muita insistência, pois tinha aflição
de olhar) a cabecinha dela. Que espaço tão pequeno
tinha para passar....
Gritos eram inevitáveis. Fazia força, mas elas acabavam
em gritos. Dois gritos seguidos de enfrentamento do medo. Gritava
como um bicho!!! Não lembro como, mas senti o bebê
chegando, a cabeça me queimando e logo o resto do corpo me
aliviando. Que sensação deliciosa e inesquecível.
Me entregaram então o bebê. Eu tinha tanta certeza
que era um menino que confundi o cordão com um possível
pintinho.... mas logo vi que era uma menina!!! UAAAAAAAAAU que alegria....
Que sensação tão mágica segurar aquele
bebezinho. O Cris começou a falar seu nome: LIZ LIZ LIZ BEM
VINDA LIZ. Pedi para chamarem minha mãe, que entrou e quase
caiu sentada (não sabia se ria, chorava, fotografava....parecia
que estava até com medo de chegar perto) Enfim, os dois encantados!
Avó e papai...
Minha filhinha no meus braços! Eu também estava totalmente
hipnotizada. Só queria cheirá-la, beijá-la...
Nossa...Ela estava com os olhos bem abertos, arregalados e me observando
também. Logo deu umas lambidinhas no meu peito. Ela estava
em paz. Tudo estava em paz. Que sensação tão
perfeita!
Voltar para Lista de Relatos
|