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Relato do parto do Gabriel - cesárea - em 31 de maio
de 2006 - e da Madalena - parto domiciliar - no dia 03 de abril
de 2008
por Maria Célia Tanus Barletta
Nascimento de Gabriel
Demorei muito para conseguir colocar no papel o relato de parto
da Madalena, pois para que ele tivesse sentido deveria vir acompanhado
também pelo relato do nascimento do Gabriel, meu filho mais
velho.
Imagino que deva ser mais fácil para digerir quando podemos
responsabilizar o outro pelo que nos acontece. A cesárea
que tive quando meu filho Gabriel Kareem nasceu foi o resultado
de uma série de acontecimentos que compõem a minha
história e de uma série de escolhas que eu fiz desde
muito antes de engravidar.
Por mais que eu até quisesse culpar alguém por ela
e pela frustração que me causou, realmente não
dava. Por isto, tive que lidar eu mesma com minhas escolhas, o que
certamente foi um dos fatores que fizeram com que o nascimento de
Madalena tenha sido tão diferente. Assim, meu relato fala
do nascimento dos meus dois filhos.
Em 2005, com 33 anos de idade, casada há quase 7 anos, estável
no trabalho, com o mestrado concluído e casa comprada, eu
e Sérgio Pizza, meu marido, decidimos que estava na hora
de ter um filho. Eu imaginava que seria só tirar o DIU que
ficaria grávida muito rapidamente. No entanto, os meses começaram
a passar, o sexo começou a ficar tenso e nada de gravidez.
Oito meses tinham se passado quando resolvi procurar um médico
para investigar melhor se havia problemas de (in)fertilidade.
Procurei o primeiro, em um consultório chiquérrimo
de um médico ultra antipático que me disse que eu
poderia sim ter minha fertilidade prejudicada pelo cigarro que fumava
desde 13 anos de idade, pelo DIU que usei durante quase 10 anos,
por um aborto provocado também há 10 anos e pela minha
idade. Fiz exame pós coito e histerossalpingografia.
O primeiro mostrou pouco muco cervical e o segundo foi normal.
Obviamente fui ficando mais tensa. Procurei um outro médico,
indicado por uma amiga, que imediatamente receitou hormônios
para estimular a ovulação.
Engravidei no primeiro mês de tentativa, no final de agosto
de 2005. Fiquei felicíssima. Tive vários pequenos
sangramentos no início da gravidez, ia direto ao consultório,
tinha necessidade de fazer ultra-som para ver e ouvir meu bebê.
Numa dessas visitas ao consultório, na 24ª semana de
gestação, o obstetra disse que eu estava com 1 cm
de dilatação e que necessitava de uma cerclagem imediatamente,
se quisesse manter a gravidez. Tinha tanta insegurança e
medo que sequer cogitei ouvir outras opiniões e dois dias
depois já tinha feito a cerclagem.
Nesta época, já havia conhecido o Gama e já
tinha ido a uma consulta com o Dr. JK, mas só falei com eles
depois do fato consumado... Escolhas...
Após a cerclagem feita, por ter certeza de que estava sendo
acompanhada por um obstetra 100% cesarista, decidi mudar de médico
e passei a ser acompanhada pelo Dr. JK. Ao longo da gravidez, e
talvez por causa do ponto da cerclagem, tive alguns sangramentos
que me deixavam completamente estressada. Cada vez que começava
a relaxar e curtir a gravidez, um novo episódio de sangramento.
As semanas se passaram e quando completei 37 semanas, o fio da
cerclagem foi removido. Mais semanas se passaram até que
com 41 semanas e 1 dia comecei a sentir contrações
à noite, que paravam durante o dia.
Por conta desse cenário, estava muito ansiosa e tenho certeza
de que isso também colaborou para a cesariana. Percebo hoje
que naquele momento eu não cogitava que poderia terminar
em cesariana, pensava que isso jamais aconteceria comigo, afinal
somos mulheres feitas para parir nossos filhos, etc e tal...
O que eu não conseguia perceber naquele momento era que eu
tinha que participar ativamente do meu parto, ele não iria
simplesmente acontecer. Fui me deixando levar de uma forma equivocada,
como se não fosse comigo e, na hora errada, quando vi, já
não tinha mais o que fazer.
Vejo hoje que tinha muitos fantasmas me assombrando, mas eu nem
percebia o quanto estava apavorada. Para encurtar a primeira parte
da história, depois de três noites com contrações,
sem conseguir dormir ou relaxar, no dia 31 de maio de 2006 fui para
o Hospital São Luiz de manhã e fiquei contentíssima
por estar com 7 cm de dilatação. A doula chegou, Dr.
JK. chegou, Dra. A. chegou, M chegou, Dra. A.P. chegou. O dia foi
passando e a dilatação na mesma.
Aí, já que estávamos no hospital mesmo, que
tal um pouquinho de ocitocina para as contrações engrenarem?
Mais um pouquinho, mais um pouquinho e os mesmos 7 cm. Já
à tarde uma anestesia para poder dar mais ocitocina e examinar
melhor o colo. Havia uma espécie de anel fibroso que "travou"
a dilatação do meu colo. Podia ser seqüela da
cerclagem, mas hoje sei que aquele anel estava antes na minha cabeça,
saiu dali.
À noite já dava para ver a cabecinha do meu filho
Gabriel, mas a dilatação estava na mesma. Outra anestesia,
desta vez a mesma que serviria para a cesárea, e a equipe
tentaria fazer um cortinho ou algo similar para ajudar o parto.
Infelizmente, no entanto, depois da anestesia Gabriel "subiu"
e a cesárea passou a ser de fato necessária. Ele nasceu
lindo, cheio de mecônio e encheu meu coração
de amor. Mas tinha um pedaço de mim que estava arrasado pela
cesárea.
Dois anos, muitas lágrimas e muita análise lacaniana
depois, vejo que a cesárea resultou das minhas próprias
escolhas, das feridas que eu ainda não tinha tratado na minha
alma. Eu tinha muita culpa pelo aborto que tinha feito e de alguma
forma acreditava que seria punida por ele, que talvez não
tivesse o direito de experimentar a felicidade de ser mãe...
Além disso e outros fantasmas, acredito também que
o ambiente hospitalar oferece uma pressão horrorosa: fica
todo mundo lá, vestidinho de verde, só esperando você
parir! Os medicamentos à disposição são
também uma tentação. Pensando em como foi o
parto da Madalena, até arrisco dizer que nem estava em trabalho
de parto ativo quando fui para o hospital. Por essas e outras eu
decidi internamente que se tivesse outro filho as coisas seriam
muito diferentes.
Parto de Madalena
Engravidei novamente - sem remédios, sem estresse, sem sexo
programado - no início de julho de 2007. Tive uma gravidez
tranqüila, com menos exames, menos pressão, menos medo.
O parto, obviamente, tinha que ser em casa. Em 02 de abril de 2008,
antes do amanhecer, comecei a sentir contrações. A
doula veio aqui, foi embora, passei o dia ao mesmo tempo me concentrando
no parto por vir e tentando não ficar ansiosa. Avisei Cris
e Luísa, duas profissionais que trabalham em minha casa,
que precisaria que elas ficassem para dormir para ajudar e cuidar
do Gabriel.
Por volta das 22h chamamos a doula. Por volta da 1 da manhã
toda a equipe estava aqui em casa: doula, Dr. J.K, Dra. A. e Dra.
N. O trabalho de parto foi uma experiência extremamente poderosa
na minha vida e fico muito feliz por tê-la vivido. Em alguns
momentos - que não sei se duraram 15 minutos ou 5 horas -
senti um desamparo muito absoluto, uma dor imensa que parecia que
não iria terminar. Foi uma sensação muito intensa
de solidão: ninguém poderia dar conta da minha dor
além de mim mesma.
Tinha lido um monte de coisas e sabia, por exemplo, que deveria
me movimentar, relaxar, abir meu corpo para ajudar minha filha a
nascer, mas, em alguns momentos, me senti vencida pelo cansaço
e pela dor e só queria ficar deitada. Fui e voltei do chuveiro
quente várias vezes. Acho que minha adrenalina estava a mil...
Dilatação completa, tive um expulsivo super longo,
com contrações espaçadas e MUITO doloridas.
Fiquei então acocorada no banquinho de parto e Madalena começou
a nascer.
Antes da última contração minha energia estava
completamente concentrada em parir e a equipe estava toda ali em
volta, pronta. Nesta hora, e enquanto esperava a contração,
acho que tinha adrenalina saindo pelos ouvidos, meu coração
parecia que ia explodir. O Dr. JK. colocou uma compressinha gelada
no meu rosto e ficou me apoiando, dizendo que algumas mulheres sentem
como se fossem rasgar no meio, outras sentem um círculo de
fogo na hora em que o bebê de fato nasce. Nessa hora, a sensação
é de um abismo e a espera parece que durou horas.
Descreveria a sensação exata da hora em que Madalena
nasceu como um ardor intenso e liso, com arrepios pelo corpo. É
de dor, com certeza, mas em algum lugar é um quase-prazer.
E foi assim que às 6h50 do dia 03 de abril de 2008 Madalena
nasceu no meu quarto, nas mãos do pai Sérgio Pizza,
que quase desmaiou de emoção. Ela tinha uma circular
de cordão, habilmente desfeita pelo Dr. JK.
Logo que nasceu me deu um banho de mecônio. Imediatamente
fomos ao quarto do Gabriel para acordá-lo para conhecer a
irmãzinha. Eu estava tão excitada, com tanta adrenalina,
que nem me emocionei de lágrimas.
Uma hora depois, excitadíssima, estava de banho tomado,
na cozinha tomando café da manhã com meus dois filhos,
meu marido e a maravilhosa equipe que acompanhou meu parto, com
a alma lavada e completamente feliz.
M
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