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Relato do parto da Clarice - parto natural hospitalar
por Patricia Carvalho
Relatos de parto e de partida
para minha mãe, Martha
e sua neta, Clarice
Gravidez e filhos nunca foram uma questão para mim. Eu imaginava
que eram coisas que brotavam e aconteciam naturalmente. Hoje sei
que para ser "naturalmente" já depende de uma escolha.
Irreversível. Mas, até então, eu achava que
o máximo que teria que escolher era a decoração
do quarto do bebê.
No entanto, aos 33 anos, já se sabe que não teremos
dez filhos, né? Então eu buscava algo especial. Para
começar, no consultório médico. E como busquei!Segundo
meu marido, mostrei minha perereca para metade dos obstetras de
São Paulo e, não satisfeita, ainda fui à Campinas...
Risosss...
Nesta época, chamei minha mãe (de Minas) para ficar
comigo uns dias. "Para quê?", ela perguntou. "Para
cuidar, de mim, ora essa!!" "Mas, como?" "Como
você sempre fez: faz comida pra mim, dá as ordens na
casa, pensa tudo, me acorda... esqueceu? É só cuidar
de mim!!"... Risosss... E ela veio, para a minha felicidade!
Resignada, decidi ter minha bebê com o mesmo obstetra de
umas colegas do trabalho. Aí, conheci a Cristina do Augusto,
no entra e sai da sala do meu terapeuta. Ela me indicou o site do
Gama. Eu passeava, passeava pelo site e achava divertido quando
eu ligava e atendia uma secretária eletrônica: "Coletivo
feminista!!!" Até que no dia em que diagnosticaram que
eu estava com diabetes gestacional resolvi ligar para uma doula.
Eu estava arrasada. Ela me tranqüilizou tanto que quase desliguei
o telefone e comi um brigadeiro.
Foi um novo começo. Marquei uma consulta com a Dra. A e
ela me olhou nos olhos, finalmente! Eu era especial porque era como
todas as mulheres. Viveria a partir dali o ritual de todas as fêmeas
ancestrais. Comprei o pacote todo (yoga + doula + lista + Dr. C
+ Dra. A) e prossegui a gravidez.
Um dia, acordei com uma idéia que compartilhei com as meninas
e a professora de yoga, durante a aula. Eu andava muito orgulhosa
da minha barriga. Apegada até demais, pensei. Fiquei com
medo que isto me levasse a um expulsivo mais demorado e dolorido...
É que eu nunca tinha me tratado tão bem quanto durante
a gravidez, eu estava tão feliz neste estado "especial"...
e como as pessoas me cercavam de privilégios!! Uauuuu! Daí,
concluí que o parto seria a primeira ruptura com a minha
filha. A primeira de muitas que seriam quebradas etapa a etapa:
sobreviver (na barriga), se locomover (no colo), depois comer (mamar),
andar (segurando minha mão), se vestir, limpar o cocô,
ir pra escola, sair de carro, comprar coisas... No começo
as rupturas seriam muito velozes, porque o desenvolvimento é
rápido, mas à medida em que o círculo fosse
se abrindo numa espiral, a ruptura levaria mais tempo para acontecer.
E em um determinado dia, o sentido do ciclo se inverteria, lentamente...
A mãe passaria a depender da filha... para sair de carro,
se locomover... até que haveria a partida da mãe,
em contraponto ao parto do bebê.
Bem no fim da minha gravidez minha mãe foi internada num
hospital em Minas. Ela tinha insuficiência respiratória
e precisava ficar no oxigênio. Coisa de rotina, diziam os
médicos. Mas a coisa foi se agravando, ela foi levada para
a UTI. Lá, ela se recuperou e estava em franca melhora no
dia em que eu entrei em trabalho de parto.
Neste dia fui na aula de yoga e falei para a professora: eu queria
um trabalho de parto rápido e intenso. Saí de lá
e disse a mesma coisa para o meu terapeuta, que nesta sessão
me disse para pensar três coisas: sem cobrança, sem
controle, fluir... Saí de lá, fui ao supermercado,
lojas etc... Certa de que a Clarice nasceria com 41 semanas... e
não naquela semana, a quadragésima... afinal, melhor
pensar que vai demorar do que achar que tá atrasado, né?
As contrações começaram às 21h30, já
de cinco em cinco minutos. Precisamente. Telefonemas, banho. Fomos
para o São Luiz, às 23h30 com dilatação
sete. Lá, consegui ir andando e não na cadeira de
rodas (era insuportável ficar sentada). Entrei na banheira
no quarto delivery. E a cada contração eu pensava
e depois falava: SEM COBRANÇA, SEM CONTROLE, FLUIR...Também
repetia a mesma frase que sempre dizia para minha bebê: "Clarice,
você vai nascer pra ser feliz!" Meu marido me olhava
carinhosamente, a professora de Yoga estava lá, mas a sensação
que eu tinha é que eu estava completamente na minha...
Eu me entreguei completamente à dor, mas sem sofrimento.
Eu queria saber o que a dor iria me ensinar.
O círculo de fogo foi a parte que mais doeu. Ali vi que
"nasce ou nasce". E ela nasceu... à 01h55 num mergulho
para a vida, em direção ao único ponto de luz
no ambiente. Ela foi com tal impulso que ela mesma arrebentou o
cordão umbilical. Uma nuvem de sangue me envolveu na banheira.
Dr. C e Dra. A super entrosados, fizeram tudo o que tinha que ser
feito. Achei diferente, mas não fiquei com medo. A equipe
me passava muita segurança. No meu peito eu a acolhia exultante
enquanto ela mamava avidamente. Liguei pra casa e avisei ao meu
pai: " Papai!! pari que nem uma gata, só que na água!!"...
Risosss...
Mamãe recebeu a notícia mais tarde na UTI. Não
podia dizer nada porque estava entubada. Quatro dias depois ela
morreu. Tenho certeza de que ela queria que tudo estivesse bem para
que pudesse partir no mesmo trem em que Clarice chegou. Por isto
é que esta é uma história de mães e
filhas, história de um parto e de uma partida.
(este relato de parto nasceu no dia em que Clarice fez 9 meses,
um dia tão simbólico)
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