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As gestações
Tudo começou com uma gravidez não planejada, aos
17 anos. Relação instável, imaturidade e estresse
de minha parte ocasionaram uma das experiências mais marcantes
e difíceis da minha vida: o descolamento prematuro da placenta
e conseqüente morte do bebê, horas após seu nascimento.
Perda dolorosa, valorizada pela minha não participação
no trabalho de parto.
Chegando muito tarde na maternidade, em período expulsivo
e com uma grande hemorragia, "foi decidida" a realização
de uma cesária de emergência. Com o nascimento do bebê
em sofrimento, fui impedida de vê-lo, ninguém ao menos
me disse se ele havia nascido, se estava vivo ou morto. Peguei uma
bronca daquele pano azul que colocam na nossa frente nas cesarianas...
Experência que me ensinou muito: não temos controle
sobre nada, as coisas acontecem e só podemos aprender com
elas. Com o tempo, toda essa experiência foi superada e digerida,
e percebo o quanto aprendi e ainda aprendo com ela.
Após cinco anos, a surpresa de uma nova gestação,
desta vez de um relacionamento mais maduro, com o meu atual marido.
Contamos a todos, decidimos nos casar e tomei uma segunda rasteira:
um aborto espontâneo aos dois meses de gestação.
Nesse momento, me perguntei muito sobre minha real possibilidade
de gerar um filho, muito frustrada e magoada com o que aconteceu.
Ainda assim nos casamos, e engravidei novamente três meses
depois. Deus havia me dado uma nova chance, e eu não deixaria
escapar. Empolgada como se fosse a primeira vez, saí, em
1996, em busca de um médico que realizasse um parto mais
humanizado, mas com a minha história, só escutei palavras
de desânimo : repouso total na gestação, a certeza
de uma cesária, a proibição de dirigir. A minha
realização como mãe e mulher não merecia
o risco e o tempo precioso da maior parte dos médicos que
atendem os convênios.
Decidi ao menos continuar com o meu médico, que achava
possível (hoje não sei até que ponto) a realização
de um parto normal após uma cesária. Eis um novo capítulo
: as cesárias desnecessárias que se seguiram.
As cesárias
Com um pré-natal quase perfeito, com somente um pequeno sangramento
aos 6 meses de gestação, segui até a 38ª
semana de gestação do Hector, meu filho mais velho,
hoje com 11 anos.
Num domingo, dia 09 de setembro, percebi a saída do tampão,
e como já tinha uma consulta para o dia seguinte, fui tranqüila
ao médico. Não sei dizer o qual a manobra executada
por ele, só sei que foi a maior dor que senti naquele dia,
que não terminou exatamente como eu desejava, a não
ser pelo nascimento de meu filho, com saúde.
Às 20 h eu já estava no hospital, com 4 cm de dilatação.
As contrações vinham tranquilamente, era mesmo um
prazer saber que a chegada do meu filho se aproximava, e eu fazia
de tudo para alcançar o meu tão sonhado parto, onde
eu poderia ter a justa participação do nascimento
do meu filho. No entanto, a paciência do meu médico
se esgotou quando minha dilatação se estagnou em 6
cm. Com um sentimento muito grande de frustração,
pois eu desejava muito continuar no trabalho, tive uma reação
estranha à anestesia, mas o parto seguiu "bem".
Havia algo mais importante em jogo que me fez superar este sentimento:
o nascimento do meu 1º filho. E de novo aquele pano azul na
minha frente...
A gestação de meu 2º filho aconteceu menos
de dois anos depois, e como fui acompanhada pelo mesmo médico,
aceitei a cesária com mais resignação, apesar
de ficar bastante chateada com o fato dele ter arranhado todo o
rosto sem que ninguém no berçário notasse.
Foi uma gestação tranqüila, sem complicações
e meu filho Ariel, hoje com 9 anos, nasceu muito bem.
Uma nova chance, oito anos depois
Sempre cogitamos um terceiro filho, mas, como todos os outros,
tinha de ser de forma inesperada. Acredito que filho é como
uma benção, uma mensagem divina.
E desta vez foi assim, sem desejos ou expectativas, a notícia
foi recebida como uma agradável surpresa pelos meus filhos,
e como uma novidade por mim e pelo meu marido. Naturalmente, talvez
pela idade madura, tive uma gestação quase perfeita,
sem muito ganho de peso, sem estresse, com uma percepção
diferenciada das mudanças que foram acontecendo em meu corpo,
no desenvolvimento do feto em meu ventre e sua estreita relação
com o meu ser. A intimidade e a cumplicidade que se estabelecem
nesta relação quase simbiótica são de
tamanha delicadeza que é como se pudéssemos viver
por um tempo de uma forma totalmente nova, passando pelas mesmas
coisas de uma forma completamente diferente, nos permite um novo
olhar ao nosso redor. A troca de influências entre eu e o
bebê podiam ser notadas, observadas e mesmo compreendidas;
momentos de alegria, tristeza, introspecção, toda
ação gerava uma reação, numa direção
ou na outra.
Não importava o sexo do bebe, seu nome, como ele seria;
e sim o poder de algo maior se manifestando através de mim.
Minhas esperanças em relação ao parto normal
ressurgiram quando uma colega de hidroginástica comentou
que minhas cesárias eram muito antigas, o que favoreceria
a tentativa de um parto normal, para que eu conversasse com meu
médico à respeito dessa chance.
Pela internet encontrei um artigo do GAMA à respeito de parto
normal depois de cesária e me contatei a doula para me informar
melhor sobre esta possibilidade. Ao mesmo tempo, conversei com o
meu médico que me surpreendeu dizendo que era possível
tentar um parto normal, mas sem dar muita atenção
às cesárias prévias pelas quais passei. Reacendeu-se
em mim a esperança de fazer um parto normal.
Consegui me organizar para participar de uma palestra no GAMA
sobre parto normal após cesária e do curso de preparação
para o parto só em meados de junho, quando já estava
com 32 semanas de gestação. Percebi desde então
que teria que tomar uma decisão importante: ou desistia de
tudo e fazia mais uma cesária, ou me prepararia para um parto
totalmente natural. O fato de eu ter três cesárias
aumentava as chances de uma ruptura uterina, que mesmo pequenas,
são aumentadas com o hábito de se fazer induções
com ocitocina durante os partos normais, por aumentarem muito a
intensidade das contrações. A realização
de uma anestesia também poderia prejudicar o trabalho, pois
eu não perceberia os sintomas de qualquer ameaça de
ruptura, o que poderia ameaçar a vida do bebe. Algo ficou
muito claro naquele dia: a possibilidade de um parto natural era
real e não um capricho - era algo que eu tinha direito.
O tempo era curto e eu devia tomar uma decisão, continuar
com o meu médico, que eu duvido que levasse adiante a minha
idéia de um parto totalmente natural, ou investir e acreditar
na realização de um antigo sonho. Na semana seguinte
ao curso eu tinha uma consulta agendada com meu médico, que
coincidentemente foi desmarcada, sem que me fosse dada uma justificativa.
Interpretei como um sinal e uma oportunidade de tomar uma decisão
e mudei de médico; agendei uma consulta com o Dr. J, conforme
a doula havia me indicado. Deste dia até o parto se seguiram
ainda 8 semanas e a certeza de que tudo ia dar certo, claro, com
uma pontinha de ansiedade.
Dias antes do parto
À partir da 38ª semana já sentia pronta para
receber o meu bebê, tanto fisicamente, pois eu já começava
a ficar cansada ao caminhar muito; quanto emocionalmente, pois já
comecei a sonhar com o momento do parto.
Curiosamente, não tinha expectativas sobre o momento do parto,
mas uma preocupação se eu conseguiria cumprir com
o meu papel, deixar que as coisas acontecessem. E foi exatamente
assim...
Dois dias antes do parto, comprei o livro "Se me contassem
o parto" de Frederick Leboyer, um dos precursores do parto
humanizado. Senti a necessidade de ler algo à respeito do
parto, que poderia chegar à qualquer momento, e como que
por pressentimento, devorei o livro de um dia para o outro. A forma
poética com que narra todo o trabalho, como se ele mesmo
já tivesse vivido tudo aquilo, me tocou profundamente e de
alguma forma me preparou para o que eu viveria em breve. Segue um
trecho que me marcou muito: "Ao entrar em trabalho, a mulher
entra "em outra dimensão", outro estado de consciência,
o tempo passa a correr de outro jeito. Desse outro "jeito do
tempo" quem não está dando à luz não
faz a menor idéia. Eterno presente? Exatamente.
Se já no fim da gravidez - desde que o milagre aconteça,
pois é milagre essa mudança de estado de consciência,
milagre que a nem todas as mulheres é dado conhecer - portanto,
se no tempo da gravidez, a mulher já tiver entrado nessa
espécie de estado de graça, ela já se sabia
protegida, sabia que nada a afetaria, feriria, e que estaria a salvo,
livre de angústias: sem nada por esperar, nada por desejar,
pois ela tem tudo. Nada por esperar, nada por recear, não
será esse o gosto da eternidade, o sabor da absoluta felicidade?
E a ordem reinará, até no centro do furacão.
"
O parto
Foram 37 horas do início das contrações até
o nascimento do Iago, mas tudo o que se passou neste período
será difícil de descrever, mas tentarei ser o mais
fiel possível.
Eram 17h40 quando comecei a perceber que as contrações
vinham de 20 em 20 minutos, mas não falei nada a ninguém
com receio de ser um alarme falso. Ainda fui à uma reunião,
mas em duas horas, as contrações leves já estavam
com intervalo de 10 minutos. As contrações ainda eram
agradáveis, eu conseguia participar do que acontecia à
minha volta, e só acompanhava as ondas de contrações
e seu ir e vir.
Por volta das 22h00, as contrações aumentaram de intensidade,
mas não de freqüência, e contactei o médico,
que me mandou para casa descansar, para poupar energia para o parto.
Praticamente não descansei a noite inteira, contando o intervalo
entre as contrações, que variavam entre 6 e 10 minutos.
Durante toda a 6ª feira tive contrações fortes,
momentos em que tinha que parar, respirar e tentar relaxar, voltando
em seguida a fazer as coisas do dia a dia.
Fui conversando com a doula no decorrer do dia e com meu marido,
que ficou todo o tempo tranqüilo ao meu lado. Ambos foram essenciais
à minha entrega ao trabalho, agradeço à eles
de todo o coração.
Por volta das 15h30, a doula pediu que eu contasse quantas contrações
eu tinha em uma hora, e quantas vezes o bebê se mexia. Às
17h liguei pra ela: tinha tido 12 contrações, e o
bebê havia se mexido 9 vezes. Ela teve a certeza que eu já
poderia me preparar para ir ao hospital, perto das 20h. Cheguei
ao hospital já com meio caminho andado: 5cm de dilatação.
Fiquei muito feliz e acompanhei atentamente as mudanças que
foram acontecendo aos poucos, com o passar das horas.
As contrações se intercalavam - hora vinham com força
total e meu corpo obedecia a contração, hora vinha
mais amena, suave e até mais curta. É como se o corpo
tivesse uma inteligência própria, e soubesse como fazer,
alternando contrações intensas com contrações
tranqüilas. E eu, finalmente, apesar de não estar fazendo
nada, me sentia parte de todo o processo, somente por permitir e
suportar que ele acontecesse em mim. E foram algumas horas de muita
concentração e preparo para um momento completamente
desconhecido para mim: a fase de expulsão.
Por volta das 2h30 da manhã, passei da sala de pré-parto
do hospital S.L., para uma sala especial, mais espaçosa e
aconchegante, cheia de "estrelas" coloridas no teto, o
que me ajudou a me concentrar nas contrações. Neste
momento, eu já estava com 7 para 8 cm de dilatação
e tudo caminhava bem, então Roti e a doula puderam descansar
um pouco. Eu mesma pude até cochilar entre as contrações...
até umas 4h da manhã, quando me assustei com a mudança
no padrão das contrações.
Lembrei-me então do que havia lido no livro do Leboyer,
que dizia que a primeira parte do trabalho era do signo de água,
onde as contrações são como ondas, que explodem
nas areias e se recolhem em seguida para retornar instantes depois.
Já a fase de expulsão, está sob o signo do
fogo, lembrando um vulcão em erupção. Reconheci
a mudança, mas me senti perdida, amedrontada, só.
Não conseguia combinar a respiração, meu corpo
tomava vida própria, fugia do meu controle. Roti percebeu
minha mudança nas respirações e foi chamar
a doula, pois achei que algo de diferente estava acontecendo. Roti
me tranqüilizou e disse algo que mudou minha postura diante
do que estava se passando: que eu ouvisse meu corpo e o deixasse
livre para fazer o que tinha de ser feito, que não oferecesse
resistência nem pensasse sobre o que estava acontecendo. E
foi o que fiz.
Passei para a cama, sentada sobre uma toalha. Em três contrações
a bolsa se rompeu. Eram 5h15 da manhã. Nas três seguintes
todo o líquido saiu e a pressão diminuiu bastante.
O intervalo entre uma contração e outra era muito
curta, e quando as pressentia, pedia o amparo do Roti, para me dar
mais segurança. Ainda tive algumas contrações
em outras posições, mas comecei a sentir câimbras
nas coxas. Foi quando a doula sugeriu que eu me sentasse numa cadeira
quase de cócoras. Se por um lado, me sentia esgotada, por
outro, me sentia completamente envolvida no trabalho, sentindo que
o momento se aproximava.
Durante as contrações, percebia que nada tinha a
fazer, a não ser permitir que algo se fizesse em mim. Não
descreveria as sensações como dor, mas como uma força
a qual eu não exercia nenhum controle.
Sentada na cadeira, acredito que em três ou quatro contrações
o bebê nasceu. Na primeira, a cabeça apontou ao fundo
e pude tocá-la, sentindo uma temperatura diferente da minha.
Quando a cabeça saiu, senti uma ardência muito grande,
e em seguida, soprei para que os ombros saíssem. Instantes
depois ele foi colocado em meu colo e começou a respirar
naturalmente, abriu os olhos e me olhou. Dr. J perguntou quem queria
cortar o cordão umbilical, e eu mesma cortei, quando ele
já não pulsava mais. Enquanto o bebê era atendido
pela pediatra, senti uma última contração para
expelir a placenta. E assim tudo se fez.
O que me marcou bastante foi a disposição que tive
para prosseguir de forma tranqüila durante todo o trabalho,
consciente do meu corpo, sem me identificar com pensamentos e emoções
negativas. Durante praticamente todo o tempo eu fui as sensações
do meu corpo. E faria tudo novamente.
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