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Oi pessoal, aqui está o meu relato de parto.
Antes de iniciar o meu relato é bom dizer que desde os 13
anos sonhava e desejava ser enfermeira obstetra, eu lia na época
tudo o que tinha acesso sobre parto. Ao acompanhar gestantes e realizar
partos sempre sonhei em ter o parto normal. Foi uma enorme frustração
quando engravidei e por causa de um prolápso de colo de útero
fui impedida de vivenciar essa experiência. Pra ter idéia,
com 13 semanas de gravidez, do nada, o colo do meu útero
se projetou pelo canal da vagina e saiu, eu literalmente dava banho
no meu colo. Na época fui intimada a nem pensar em parto
normal, porque se quer poderia entrar em trabalho de parto.
Nove anos atrás não tinha o conhecimento que tenho
agora e nem o contato com as listas de discussão. Acreditei
na palavra médica e fui pra cesárea. Na segunda gestação,
em 2006, eu já estava mais confiante, tinha mais conhecimento,
mas estava sozinha, não tinha ninguém com quem pudesse
contar pra me encorajar e me dar o apóio tão necessário.
Resultado; briguei com a obstetra e disse que pelo menos iria aguardar
entrar em trabalho de parto. Minha intenção era ficar
sozinha em casa e parir sozinha, eu acreditava que seria capaz.
Mas na consulta ela percebeu que eu estava em TP, fez o maior terrorismo
comigo, disse que eu era louca de insistir na idéia do parto
e que eu arrumasse outra obstetra se insistisse. Então, sozinha
e vulnerável, desisti e lá fui pra mais uma cesárea.
O tempo passou, conheci a lista Parto Nosso, conheci a F., doula,
tive o privilégio de amparar sua bebê e fiquei fascinada
pelo parto domiciliar. Na lista eu conheci o Dr. R e um dia descrevi
toda a minha história pra ele, meu segundo filho tinha poucos
meses. Perguntei à ele se conhecia algum caso como o meu
e se era muita loucura pensar em um parto normal. O desejo estava
aqui ardendo no meu peito, eu olhava meu filho e sonhava. Pra minha
surpresa o R. me respondeu muito gentilmente e não só
ela conhecia o caso como tivera uma paciente com o mesmo problema
e que evoluiu para parto normal, sem problemas. Eu vibrei e naquele
momento, desejei com tudo o que tinha de sentimento que engravidaria
de novo e teria o parto normal sonhado. É certo que eu estava
movida só pela emoção, a razão me dizia
que não dava, pois não teria condição
de ter mais um filho. Quando meu filho estava com 1 ano e dez meses,
isso foi em janeiro, eu decidi que era melhor por os pés
no chão e não pensar mais em outro filho, concordei
em meu marido fazer a vasectomia e a essa altura já estava
grávida e não sabia.
Não foi fácil o início da gestação,
foi uma reprovação geral em família e aqueles
olhares de julgamento por ser o terceiro filho e ter ainda um tão
pequeno. Senti na pele o quanto uma mulher pode ser descriminada
por ter três filhos. Mas eu estava em outra situação
e fui muito encorajada pelas amigas que fizera ao acompanhar suas
gestações e partos ou amparando seus bebês.
Essas mulheres me encorajaram, me apoiaram quando eu mais precisei
e isso fez toda a diferença. No dia que soube que estava
grávida, senti Deus falar ao meu coração que
o milagre que eu esperava iria acontecer. Na mesma hora pensei que
seria o meu parto normal tão sonhado. E durante a gravidez,
que foi a melhor que já tive, várias vezes essa mensagem
foi reafirmada e isso me fortalecia e animava.
Eu preciso dizer que a F. exerceu uma influência muito marcante
nesse processo, aliás durante toda a gravidez. Nasceu entre
nós uma amizade sincera e forte. Entendi com o parto o real
sentido do significado de empatia:" Empatia é estado
de espírito no qual uma pessoa se identifica com a outra,
supondo sentir o que ela está sentindo". Ela acreditou
que era possível e me encorajou o tempo todo. De todos o
que me cercavam foi com ela que pensei: Não preciso de mais
outra pessoa, o parto vai rolar com a gente e lá pro final
chamo a enfermeira obstetra. Ela também me cercou de atenção,
me deu colo e carinho. Ouviu meus medos, meus anseios, eu era uma
grávida e não uma enfermeira obstetra. Tive medo de
não entrar em trabalho de parto, tive medo do colo não
dilatar, tive medo da pressão não estabilizar, enfim,
medos existem e eu estava ali, frágil e a F. segurou as pontas,
sempre me acalmava, sempre me fazia lembrar que tudo aconteceria
a seu tempo. Eu senti seu amor e dedicação, não
tenho como agradecer por tudo e não há dinheiro que
pague.
Devo dizer que tinha pelo menos 5 justificativas não favoráveis
pra ter parto normal:
1- 39 anos, que segundo muitos obstetras não humanizados
é um absurdo, a mulher já é velha demais nessa
idade.
2- Relaxamento dos ligamentos do útero que me levaram a ter
3 vezes o prolápso do colo de útero e que segundo
os médicos não me permitiria ter parto normal pelo
risco de o útero ser projetado para fora.
3- Duas cesáreas anteriores, sendo a última a dois
anos e 5 meses (Que "absurdo pensar em parto normal")
4- Hipertensão a 1 mês e meio
5- O peso do bebê (ainda bem que optei em não fazer
outro ultrasson, o último foi com 31 semanas
6- Esqueci de outra, útero com vários miomas.
Também não posso esquecer que a minha doula virtual
foi fundamental nesse processo, porque até o sexto mês
eu pensava que por causa dos meus problemas com o útero precisava
de hospital e num encontro rápido em São Paulo, com
poucas palavras e uma atenção especial essa mulher
me fez acreditar que era possível ter um VBAC em casa, a
persuasão dela é tremenda, por isso eu queria que
ela estivesse presente no parto, mas não foi possível.
O Dr. R também foi muito importante, eu tinha muitas contrações,
desde o sétimo mês e acreditava que ela nasceria muito
antes da data provável. Pensava que já teria dilatação
do colo antes, mandei e-mail pro Dr. R, com medo de não ter
dilatação e ele, com a calma e sabedoria que lhe são
próprios respondeu, que o colo dilataria quando a bebê
estivesse preparada para nascer. Aí me tranqüilizei.
Foi muito importante também o apoio e mensagens de bênçãos
da lista parto nosso; como faz diferença, ler o encorajamento
de quem está distante, nem nos conhece pessoalmente, mas
vibra e torce por nós. Sou muito grata a todos.
No dia D, que foi 1 de outubro, acordei às 4 da manhã
com contrações, não dei importância pq
pensei serem de novo contrações de ensaio e não
de trabalho de parto. Já vinha de 3 dias seguidos com contrações
de pródromos, que hora pareciam de parto e nada, mas nesse
dia, lá pelas 5h, as contrações começaram
a vir com freqüência, e com uma dor tipo cólica
menstrual, diferente do quê sentira até agora, mais
intensa; aí eu levantei, fiquei andando, rebolando, fui pro
banho e quase 7 horas, liguei pra parteira, disse pra ela vir me
avaliar porque sentia que agora ia pra valer. Liguei também
pra F., queria esperar mais pra não acordá-la cedo,
mas não dava, a dor tava ficando pior a cada contração.
parteira chegou por volta de 7:30 e F. logo a seguir, depois chamaram
a D., o anjinho que estimulou pontos de acupuntura pra eu entrar
em TP. As contrações estavam intensas e eu lembrava,
eu as tinha pedido e falava sempre que elas eram bem vindas. A F.
trouxe a banheira de parto inflável, que enorme! Linda e
na minha cor predileta: azul. Não imaginava ser tão
grande. Eu andava e rebolava e tudo o que queria era a água.
Meu neurônio técnico dizia que era cedo, mas meu corpo
pedia e segui meus instintos, foi tudo de bom!
Às 8:13h a bolsa rompeu, a F. gritou: Viva! A bolsa estourou!
Aí foi um coro de vivas porque a bolsa TINHA ROMPIDO, eu
senti um enorme alívio momentâneo nessa hora e que
delícia sentir aquele líquido quentinho escorrendo
pelas pernas. A D. chegou logo também, não tenho noção
da hora. E dá-lhe a colocar água quente na banheira,
mamãe esquentava água no fogo, era balde pra lá
e pra cá do chuveiro, mangueira; meu marido chegou e ajudava
no que podia e eu lá sem me conter pra entrar na banheira,
até que perguntei se não dava pra eu entrar logo,
que eu não estava agüentando esperar. Quando entrei,
que sensação maravilhosa, deitei no fundo inflável
e foi um alívio, aí foi como se eu tivesse entrando
em um lugar do qual não queria mais sair. Eu pensei com meus
botões: Daqui eu não saio nem por um decreto. Foi
instintivo, eu fechei os olhos e me concentrei, a cada contração
sentia mais dor. Eu havia esperado tanto esse momento, e pensava
comigo: Vai passar, as contrações vão dilatar
meu colo e trazer minha filha à luz. Eu clamava, eu orava
e pedia ajuda de Deus. Eu pensava também: Preciso me entregar,
vou me entregar, vai dar tudo certo!
A D. perguntou se eu conseguia virar de costas pra ela colocar
as agulhas da acupuntura, eu consegui, ela estimulou os pontos para
alívio da dor. Lembro que senti muita sede, pedi suco de
laranja, que a mamãe fez com muito amor, depois ela trouxe
uma toalhinha pra enxugar meu suor ( ela estava apavorada, mas tentou
ajudar). Eu pedi chocolate e depois água. Eu também
falei pras meninas, acho que logo no começo: Se eu pedir
cesárea, não acreditem, não é verdade.
Por volta de 10h, eu estava com muitas contrações,
a acupuntura foi ótima porque eu senti que diminuiu a intensidade,
eu pedi pra parteira fazer um toque: 4,5cm; que jóia pensei,
mas no meu íntimo achava que tinha que evoluir rápido
porque sentia que estava chegando no meu limite.
A partir daí, eu fiquei meio em transe, relaxei mesmo. As
meninas dizem que eu cochilei nos intervalos das contrações,
eu só lembro de ter relaxado. Foi pouco tempo, não
lembro quanto, depois começaram a vir contrações
muito poderosas, aí eu comecei a clamar a Deus com mais fôlego,
e cada contração a dor foi ficando mais intensa. Lembro
de ter falado: Deus tem misericórdia, me ajuda a suportar
a dor, e a F. veio bem pertinho e falou: Ele tem Kátia, Ele
não dar a dor maior do que você pode suportar! A F.
chegou pertinho e me falou com ternura: "Aceita a contração,
relaxa, deixa a dor vir que ela passa rápido!. Eu precisava
ouvir isso naquele momento de dor "panque". A parteira
me ajudou muito, fez massagem, jogou água um bom tempo ba
minha barriga, como relaxa a gente as mãos de alguém
nas costas e a água na barriga.
Eu recebi muito carinho e massagem, até nos pés.
Estava enganada, pensei, eu precisava das 3 comigo, não daria
conta sozinha ou só com a F. como pensara antes. Também
ouvi as músicas que queria. Que delícia! Bom, na fase
final, que eu não sabia mas já estava nela, eu comecei
a "apelar". Foi muito rápido, porque às
10h eu estava com 4,5cm e 11:04 ela nasceu. Na hora da contração
eu falava: "Gente não tô agüentando mais
me leva pro hospital, eu quero analgesia!" Ao mesmo tempo latejava
na minha cabeça: Não! Não posso ir pro hospital,
se não vou virar refém". E aí de novo
tinha contração e de novo apelava. Eu ouvia as meninas
cochicharem mas não entendia nada, até que comecei
a sentir uma dor com uma sensação de ardência
intensa e senti a cabeça da minha filha empurrando e empurrando
pra baixo, então, foi muito instintivo, eu juntei todas as
minhas forças eu gritei, gretei não! Eu berrei mesmo,
o mais que pude: "Eu tô sentindo ela empurrrar!"
Deus, faz a minha filha nascer! Tá ardendo!
Fiquei de lado na banheira, aí a parteira me ajudou a colocar
uma das pernas na borda da banheira. Ela fez outro toque, nem senti.
Só ouvi que a cabeça tava lá embaixo. Depois
ela me disse que lembrou-me que essa era a posição
lateral que eu tanto tinha estudado, na hora eu não lembro,
só lembro que fiquei de lado, então veio outra contração
muito forte, berrei de novo: Deus faz nascer minha filha, me ajuda!
E gritei o mais que pude, aí ouvi as meninas falarem que
tava nascendo, não abri os olhos, continuei a gritar e lembro
de ter falado: - A dor não passou!
A parteira falou que a cabeça veio bem lenta e que ajudou
no desprendimento do ombro, porque estava demorando, pudera! Ninguém
sabia, até pesar, a tourinha que tava nascendo: 4.265g. Aí,
foi só prazer e alegria, me deram ela nos braços,
eu a peguei, cheirei seu corpinho, acariciei suas costas e falei:
Louvado seja Teu Nome Senhor, Louvado seja o Teu Nome, Obrigada
ó Deus! Filha, mamãe te ama, seja bem vinda,, que
Deus te abençoe!. Não lembro tudo o que falei, era
tão imensa e intensa minha alegria e emoção,
era riso com lágrimas, era tanto prazer, que não dá
pra descrever! Eu não olhei, mas todos choraram muito, foi
uma impregnação de emoção e alegria
em todos que estavam ali.
Depois que o cordão parou de pulsar, o pai o cortou. Sei
que essa emoção foi muito profunda pra meu marido,
ele estava meio em estado de choque, meio aéreo, me disseram
que chorou de soluçar, foi lindo, ou melhor foi linda a unidade
que fizemos: a Ana Beatriz em meus braços, as mãos
dele na minha cabeça e na cabeça da filha.
As meninas se revezaram a seguir, uma assumiu os cuidados com a
bebê e as outras me levaram pro banho, após o descolamento
da placenta, que foi rápido. Eu tava dolorida, mas me sentia
bem, me deram banho, me secaram e me colocaram na cama, secaram
meu corpo, me colocaram roupa, eu me sentia muito cansada. Lembro
que estava com muita fome, aí pedi qualquer coisa pra comer
meio consistente, enquanto o almoço não ficava pronto.
Lá veio minha mãe com um mingau de farinha Láctea
(era o mais rápido). Depois, do almoço pronto, a F.
me deu a comida na boca. Fui tão cuidada, tão amparada,
não tenho como agradecer a todos por tudo.
A equipe fantástica só foi embora depois de me verem
bem, e eu fiquei ali na minha cama, vendo meus filhos que chegaram
e conheceram sua irmãzinha, sendo cercada de muito amor,
curtindo minha filhinha e muito, muito... Tremendamente feliz! Eu
nascia de novo como mãe, nascia como mulher fêmea mamífera
capaz de parir; nascia como uma nova mulher sabendo e vivenciando
em mim mesma a dor que eu tanto respeitava e tentava aliviar nas
mulheres que assisti, eu nascia de novo como mulher e um ser humano
melhor e mais sensível e madura.
Se me perguntarem sobre a dor eu direi a verdade pura e simples,
dói, dói muito e intensamente, mas passa assim que
o bebê nasce e ela pode ser tão menos intensa quanto
mais recursos tivermos pra nos ajudar: água, massagem ,carinho,
apoio. O que eu prefiro, tendo passado pelas 2 experiências?
Mil vezes o parto normal, não trocaria, a dor e as contrações
por nenhuma das cesáreas que passei e por nada que possa
existir. Estava certa que as contrações e dores trariam
minha filha à luz, e o prazer e emoção que
senti não têm comparação com o que senti
nas cesáreas. Por isso sempre acreditei que o parto era algo
divino, que transcende o natural, o normal, porque ele é
capaz de trazer emoções incomparáveis, porque
ele contagia quem está perto, porque ele transforma quem
dele participa e vivencia. O parto é um momento sagrado em
que Deus se faz presente intimamente entre os homens, especialmente
naqueles que Nele crêem.
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