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Mãe da Lis
Quando se conta um parto, parece que é preciso contar a gravidez.
Senão, fica parecendo que você chegou a um lugar inesquecível,
sem contar como foi parar lá. Eu fiquei grávida de
repente. Foi uma gravidez "desprogramada". Uma semana
antes de descobri-la tomava uma cerveja com uma amiga e dizia: "Eu
não quero ter filhos".
Eu também não tinha convênio médico.
Tinha cancelado o meu 4 meses antes. Descobri que eu podia fazer
um e fiz, mas sem direito ao parto. Depois de muitas pesquisas de
preços em hospitais e cifras astronômicas, cifras acessíveis
e cifras de todos os tipos, bati o primeiro martelo: vou pro sistema
público. Fui para o Hospital Universitário da USP,
porque estudo ali e comecei meu pré-natal com a querida Dra.
Susy. O meu primeiro martelo bateu em nome do parto normal: eu sabia
que o sistema privado de saúde faz muita cesariana e que
o sistema público faz mais partos normais. Com o meu convênio
barato e muita coisa para fazer (trabalho, pós-graduação
e tudo mais) eu decidi não fazer a "via crucis"
da busca de um médico favorável ao parto normal. Fui
a um sistema favorável. Além disso, os obstetras que
me indicavam e que faziam parto natural não aceitavam convênio
e eu pensei na possibilidade de ir a eles mais para o final da gestação.
Minha vida foi bem agitada durante a gravidez. No começo,
tive um pouquinho de enjôo, que, no entanto, não me
fazia vomitar. Odiava cheiro de alho e de café (que eu adorava
e já adoro de novo). E dormia muito. Como eu dormia! Depois
do terceiro mês eu fiquei com pique total e dei um gás
em tudo, no sétimo fui terminando a pós, comecei a
ir a algumas aulas de yoga (normal mesmo, não para gestantes,
mas a professora tomava o maior cuidado comigo) e na 35ª. semana
eu fui colocada de licença médica por causa de 3 cm
de dilatação "antes do prazo", depois de
passar mais de 6 horas em pé, animadíssima, fazendo
sala no chá de bebê da Lis. Quase a fiz nascer prematura
de tanta vertical! Fui a alguns dias do curso de gestante do HU
e perguntava tudo o que podia para todas as mulheres que já
tinham parido. Essa foi minha preparação.
Às vezes, a minha querida amiga Mimi me ligava e militava
pelo parto natural na minha orelha. Ela havia tido o primeiro filho
por cesariana e a segunda por parto natural e ficou fascinada com
a idéia. Hoje eu sou muito grata a ela. Foi por ela que eu
resolvi que tinha que ir conhecer as Casas de Parto. No fim, descartei
a Casa de Maria por ser muito longe (eu moro no Butantã)
e aderi à Casa de Parto de Sapopemba. Fomos lá. Eu,
o papi Ernani e a Lis, chutando a barriga. Fui recebida pela doce
Tereza, que me mostrou a casa, perguntou se eu tinha dúvidas,
conversou comigo sobre a gravidez, a rotina da casa. Tricotamos.
A casa é pequena, acolhedora, sem a menor pinta de hospital,
com mamães e bebês andando por ali. Hoje, eu a comparo
a um Templo de Mulheres, um templo de nascimento. Bati outro martelo:
se eu puder vou ter meu bebê aqui. Dizia "se pudesse"
porque eu ainda podia ter intercorrências, podia ter um parto
prematuro, morava muito longe de lá e se entrasse em trabalho
de parto nos horários de pico de trânsito não
me aventuraria a ir etc . A gestação e o parto me
ensinaram que não há controle possível e a
perfeição está no tentar. A gente depende do
corpo, do trânsito, do médico, do local, do bebê,
do pai, do carro... do tampão, que até hoje não
sei direito o que é, mas o nome não me parece muito
adequado porque desde a 35ª semana eu soltava uma gosminha
amarelada. Teve gente que me disse que o tampão era meio
compacto, outros que era uma gosma mesmo. Se for isso, o meu foi
saindo, saindo aos poucos, vários dias de tampinhas.
Reduzi muito os meus esforços. Passei a fase de risco de
parto prematuro. Na semana 38, na segunda-feira, conheci a maternidade
do HU. Muito bacana, muitas mães felizes, aulas pelos corredores,
ampla, tecnológica, tchararans. Estava com muitas contrações
desde a noite anterior (daquelas indolores que tem um nome impronunciável)
e contei para a enfermeira do curso. Ela me recomendou passar no
PA. Passei no PA, o exame de toque mostrou uma dilatação
de 4 cm. O médico anunciou que eu estava em trabalho de parto
e disse para a enfermeira "descolando a bolsa..blá blá".
Não entendi, não sabia o que era, depois descobri,
mas não sei até hoje se ele descolou ou não.
E agora, o que fazer? Disse: Doutor, eu não vou ter bebê
aqui, vou para a Casa de Parto, dá tempo?
Ele disse que dava, perguntou se eu já tinha ido lá.
Pedi para sair do consultório e falar com o Ernani. Anunciei
o trabalho de parto. E? Ficamos ou vamos? Será que aconteceu
assim porque a gente tem que estar aqui? Que fazemos? Entrei e saí
do PA umas 5 vezes, o médico tinha ido ver outra paciente.
Peguei o celular, fui na entrada do hospital e liguei para a Casa
de Parto. Yukie, enfermeira de lá, me convidou a ir na Casa.
O médico me fez cardiotocografia, disse que era trabalho
de parto mesmo. Passei em casa, almocei, tomei banho, avisei os
parentes.Fiz tanta coisa nesse trabalho de parto que não
doía nada e em tudo o que eu fazia pensava: estou fazendo
isso e estou em trabalho de parto! Andei de carro, atravessamos
a cidade e eu olhava para as pessoas e pensava: Oi, eu estou em
trabalho de parto!
Sentei na recepção da Casa. A parteira Cristina me
olhou e disse: "Outra na mesma situação. Você
não está em trabalho de parto, não". Mas
me examina? Vim de longe e se for parto mesmo não vou conseguir
voltar no fim da tarde. A dilatação era a mesma de
4 cm, mas a cardiotocografia mostrou contrações desritmadas.
Lá fui eu para casa, avisando todo mundo que era alarme falso.
Trabalhei na terça, com muitas contrações,
na quarta elas diminuíram. "Agora é que não
vai nascer mesmo." Dormi. Às 3 horas senti um dor de
cólica subindo do fim da espinha, acordei e água escorrendo
pela perna. Apertei o braço do Ernani: "A bolsa estourou.
Liga pra Casa de Parto". Recebemos orientação
para chegar lá umas 5 horas. A segunda contração
demorou uns 30 minutos para vir. Tomei banho tendo contrações
de 15 em 15. Fui na casa do meu pai trocar de carro com contrações
de 10 em 10. Fomos pela madrugada, eu e Ernani, Ernani no volante
e eu na dilatação, com o cronômetro do celular
ligado, contrações de 4 em 4 minutos, uma toalha para
morder nas mais doídas. Quando me perguntam se parir dói,
sempre respondo: "Você já viu estrela de sentir
dor, que nem em desenho animado? Eu vi uma constelação.
Eu vi a Via Láctea." Ainda bem que meu parto foi rápido:
Deus me deu o frio certo pro meu cobertor.
Quarenta minutos de trajeto, 10 contrações muito doloridas.
A boa notícia é que elas não doíam progressivamente,
elas variavam, algumas mereciam morder a toalha e gemer e outras
não. Quando a contração passava, eu sentia
um relaxamento intenso, ficava meio grogue. Cheguei à Casa
de Parto achando que não ia conseguir andar até a
porta. Disse para a enfermeira que queria fazer cocô, xixi,
vomitar, queria tudo. Parava de andar na contração,
voltava a andar fora dela. Não conseguia subir na cadeira
pro exame e a Cristiane já foi me avisando que isso era sinal
de expulsivo. Do que? Sei lá. Não entendia nada. Sentar
na cadeira pro exame foi um parto. Pressão, cardiotocografia
e a melhor notícia do mundo: 9 de dilatação.
Fui para o quarto. Uma música suave me tocou, entrei na ducha,
que delícia! A dor foi diminuindo. Tentei sentar na bola
suíça duas vezes e já ia desistir, mas depois
resolvi sentar e sentei. Doeu, mas depois foi tão bom...
Fiquei na bola uns 30 minutos, com a água caindo nas minhas
costas e o Ernani me olhando com a maior cara de "Minha filha
vai nascer!". A gente já tinha passado pelo alarme falso
na segunda e ficou louco para saber como ela era. Enquanto eu estava
ali, debaixo da água, com os olhos fechados, ouvi uma voz
de mulher: "Deus te abençoe. Bom parto". Pensei
que era um anjo. "Estou saindo, mudança de turno".
Era a Vilma, auxiliar que me recebeu junto com Cristiane.
Comecei a sentir uma força fazendo dentro de mim! Força
de colocar para fora. Tentei segurar e doía mais ainda. "Ernani,
chama a Cristiane." Veio a Tereza e a Cristiane. A Tereza!
Que me mostrou a casa estava ali. Ela me secou, me ajudou a subir
na cama, disse que não era para eu segurar a força.
Quis ficar de lado, na posição que sempre dormia.
Tereza do meu lado e Cristiane na boca no gol, me mostrou com o
dedo onde eu devia fazer força, me orientou para tentar não
gemer nem gritar para não perder força e me olhou
com fé e confiança na minha capacidade de parir. Ela
tem olhos doces. Fiz força muitas vezes e fiquei muito cansada,
com as pernas moles. O Ernani passou a levantar a minha perna para
eu segurar o joelho porque eu não tinha mais força
para levantar a perna. Em um dado momento olhei para o Ernani e
disse: "Tá me faltando coragem pra continuar".
Nem pensei no quanto o que eu disse era sério pra ele. Depois
ele me falou que foi desesperador ouvir aquilo ali, no meio do parto,
a cabeça da Lis quase para fora, ter que ir para um hospital?
Ele pensou nisso tudo. Fiz força mais algumas vezes. A Lis
ia e voltava.
A Cristiane me orientando para eu fazer uma força maior para
ela passar, que estava muito perto. Na verdade, eu percebia que
havia um lugarzinho lá que ia se arrebentar quando ela passasse
e recuava. Mas eu estava exausta. A maior exaustão que já
senti. Ouvi pássaros cantando, o dia nascia. Foi quando pensei:
"Quer saber, tô muito cansada, quero mais é que
se f... tudo aí embaixo!" (desculpe a falta de romantismo,
mas foi isso mesmo). Respirei muito fundo, quando veio a contração
e fiz toda a força que podia e ela nasceu! Ernani viu Cris
desfazer duas voltas de cordão do pescoço da Lis e
posou para foto cortando o cordão umbilical, que já
não pulsava. Ela estava ali, fora da minha barriga! E eu
tão zureta que não passava nem pensamento na minha
cabeça. Só queria descansar. Toda amassada a Lis,
cheia de vernix, branca de vernix, deu um chorinho bem pequeno.
Não quis mamar, só queria dormir. Deve ter ficado
cansada de 3 dias de contração para lá e para
cá. Cris verificou seus sinais vitais, mediu, pesou, colocou
o pezinho dela de passarinho na declaração. Eu tinha
uma parteira! Eu tinha tido um parto com parteira, me senti muito
privilegiada. Eram 6h45 do dia 26 de março de 2009 quando
ela nasceu.
Fiquei ali deitada duas horas. A placenta tinha saído inteira
e a cama ficou com um montão de sangue. Até perguntei
se aquilo tudo era normal e era. Ernani foi para casa descansar.
Fui tomar banho com as pernas muito bambas, tontinha, a Flora me
ajudando, perguntando como foi, conversando comigo sobre tudo. Fui
para um quarto com outras duas mães. Uma delas era de primeira
viagem como eu e a outra estava no terceiro filho. Trocamos muitas
figurinhas sobre os nossos partos, sobre como fomos parar ali, sobre
como estava indo a amamentação. Ainda passaram mais
duas mães pelo quarto até a alta. A Lis dormia sem
parar e os outros bebês estavam mais acordados e manhosos.
Um mamava muito, o outro tentava e não conseguia, ficava
resmungando. As enfermeiras de todos os turnos acordavam a Lis de
tempos em tempos e insistiam para ver se ela mamava. Foi muito importante
estar perto de outras mães depois do parto. Foi muito importante
o Ernani ter ido embora e voltado no horário de visita. Depois
ele me disse que pediram para ele ir embora, porque acharam que
eu estava muito dependente dele. Foi nessas 24 horas, depois de
ter caminhado pelo corredor da Casa, pensando "Meu Deus, como
é que cuida dela?", que eu comecei a me empoderar de
ser mãe. Foi ali que eu comecei a escutar seus sons, perceber
seus movimentos, sentir seus cheiros e entendê-la fora de
mim.
Na Casa de Parto diz-se que só não dão alta
em 24 horas se o bebê não mamar direito. Elas me ensinaram
a pegar o seio e colocar na boca da Lis, a segurá-la, qual
parte do seio ela tinha que sugar, que apetrechos ( conchas e bicos
de silicone) eu poderia tentar usar, o que fazer para amenizar as
rachaduras e para acelerar a cicatrização. O meu bico
era curto e machucava fácil. Quando eu estava em casa, tentando
amamentar, entendi que elas insistiam para ver se eu amamentava
porque foi ali, de madrugada, cansada depois do parto, naquela novidade
toda, que eu descobri que se eu não tomasse uma atitude eu
não ia conseguir fazer a Lis mamar. Fiquei da 1h até
as 4h30 tentando colocar o bico do meu seio na boca dela e esperando
ela sugar. Ela mamou uns 10 minutos, mas o importante é que
eu tinha conseguido amamentar. Em casa, eu passei por isso muitas
vezes, muitas horas para ela mamar um pouquinho, até entender
como ela mamava, como eu devia colocá-la no colo, como eu
devia enrolá-la num paninho para facilitar tudo, além
dos inúmeros cuidados com o seio para cicatrizar.
Esse é meu relato. Coube muito nele e faltou outro tanto
de coisas. A minha bolsa rompeu 3h e a Lis nasceu 6h45. Meu parto
foi muito rápido para o primeiro. Eu fiquei 3 dias sem dormir.
Eu fiquei fascinada, cansada e sonhando acordada. Feliz demais.
Tudo tinha ido tão bem, que parecia uma fábula. Até
hoje eu acho que parece uma fábula, que eu inventei tudo,
porque se a minha bolsa não tivesse rompido de madrugada
eu não teria ido até a Casa, porque doeu, mas eu suportei
e eu sempre duvidei da minha capacidade de suportar a dor; porque
eu quase fiquei internada no hospital e não sei o que me
deu que eu saí de lá; porque eu nunca planejei um
parto humanizado, mas achava legal e eu tive; porque eu fui parar
num Templo de Mulheres; porque a minha filha nasceu nas mãos
de uma parteira de olhos doces em pleno século XXI (época
em que percebemos que em muitos aspectos o antigo era melhor) e
ela é muito saudável e alegre.
Dizem que as mulheres depois do parto esquecem toda a dor, até
para poderem ter outro filho. Eu não esqueci. Doeu e essa
dor me constitui. Todas as vezes que o bico do meu seio ficou doendo
no começo da amamentação, que eu fico cansada
de acordar de madrugada, cansada de balançar a Lis no colo
com cólica, eu penso nessa dor e na minha postura diante
dela. Suporte.
Fiz um blog com informações sobre a Casa de Parto
de Sapopemba
www.casadepartodesapopemba.blogspot.com
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